

O banco central chinês reafirmou, uma vez mais, a proibição total sobre a negociação de criptomoedas, após identificar nova atividade especulativa em ativos virtuais em todo o país. Este reforço representa uma escalada significativa nos esforços do governo para erradicar as transações de moeda digital dentro das suas fronteiras.
No final de 2025, o Banco Popular da China promoveu uma reunião de coordenação de alto nível com 13 entidades governamentais, visando reforçar os mecanismos de fiscalização e travar o ressurgimento de atividades ilegais com moedas digitais. Apesar das proibições regulatórias abrangentes, iniciadas em 2017 e intensificadas em 2021, as autoridades têm registado tentativas persistentes dos agentes de mercado para realizar transações com criptomoedas.
A reunião apontou as stablecoins como um risco significativo para o sistema financeiro chinês. Os responsáveis sublinharam preocupações com operações de branqueamento de capitais, fraudes e transferências ilícitas de fundos transfronteiriças facilitadas por estes ativos digitais indexados ao dólar. O banco central reiterou que as moedas virtuais não têm estatuto de moeda legal na China e não podem ser utilizadas como dinheiro legítimo no mercado financeiro nacional. Qualquer atividade empresarial ligada a criptomoedas constitui uma infração financeira que ameaça a estabilidade económica e a ordem social.
Este novo ciclo de fiscalização reflete o compromisso firme de Pequim em manter um controlo rigoroso de capitais e prevenir os riscos financeiros associados a ativos digitais descentralizados. O governo vê as criptomoedas como instrumentos que podem comprometer a soberania monetária e facilitar a fuga de capitais, tornando a sua eliminação uma prioridade estratégica para os reguladores.
O reforço regulatório anunciado pela China desencadeou reações imediatas nos mercados, impactando especialmente empresas cotadas em Hong Kong com exposição a ativos digitais. Segundo a Reuters, várias empresas do setor das criptomoedas e blockchain registaram quedas acentuadas nas suas valorizações após o comunicado do banco central.
A Yunfeng Financial Group, que tem estado a expandir o negócio de tokenização, viu as suas ações desvalorizar mais de 10% nas primeiras sessões do dia. A aposta estratégica da empresa nos serviços de ativos digitais era vista como uma oportunidade de crescimento, mas a nova ofensiva lançou dúvidas sobre a sustentabilidade deste modelo na Grande China. De igual forma, a Bright Smart Securities sofreu perdas próximas de 7%, enquanto a OSL Group, plataforma de referência para negociação de ativos digitais, recuou mais de 5%.
O movimento generalizado de vendas refletiu preocupações fortes de que a posição intransigente de Pequim possa comprometer as ambições de Hong Kong em tornar-se um centro líder de ativos digitais na Ásia. A cidade tinha feito avanços relevantes na criação de uma infraestrutura regulatória para a indústria das criptomoedas, aprovando legislação abrangente sobre stablecoins em meados de 2025. Este novo enquadramento atraiu o interesse de mais de 40 empresas na obtenção de licenças operacionais, incluindo grandes instituições globais como a Circle e a Standard Chartered.
Liu Honglin, fundador da Man Kun Law Firm e especialista em regulação financeira, afirmou que o comunicado do banco central elimina qualquer ambiguidade remanescente sobre a posição da China relativamente às stablecoins. Referiu que os reguladores estabeleceram “uma linha vermelha concreta sobre o que era antes uma fronteira difusa”, deixando clara a intolerância da China continental relativamente a qualquer atividade ligada a criptomoedas, independentemente da evolução regulatória em Hong Kong.
Esta diferença entre os esforços de Hong Kong para regular ativos digitais e a proibição absoluta da China continental cria um contexto regulatório complexo. Embora Hong Kong beneficie do princípio “um país, dois sistemas”, que permite regras financeiras próprias, a oposição do governo central às criptomoedas limita inevitavelmente o desenvolvimento do ecossistema digital local, sobretudo nos serviços voltados para investidores chineses continentais.
Apesar da proibição total da China sobre a negociação e mineração de criptomoedas desde 2021, as autoridades continuam a enfrentar sérios desafios na fiscalização. O caráter descentralizado e internacional das redes blockchain torna extremamente difícil eliminar por completo as atividades relacionadas com criptoativos, mesmo com normas restritivas.
Segundo o Luxor's Global Hashrate Map, a China representa cerca de 14,05% da potência computacional mundial do Bitcoin, equivalente a 145 exahashes por segundo. Esta parcela coloca o país em terceiro lugar no ranking global de mineração de Bitcoin, apenas atrás dos Estados Unidos e da Rússia. A existência de operações de mineração de grande dimensão mostra que os empresários continuam a encontrar formas de operar instalações clandestinas, apesar das proibições legais e do reforço da fiscalização.
As autoridades já desmantelaram várias operações subterrâneas sofisticadas nos últimos tempos. No início de 2025, a polícia desmontou uma rede bancária transfronteiriça que tinha branqueado mais de 136 milhões $ em criptomoedas para contornar normas financeiras e controlo de capitais. Segundo os investigadores, 18 dos 49 casos de banca clandestina analisados em 2023 envolveram transações em moedas digitais, demonstrando a adaptação das organizações criminosas às novas ferramentas digitais para atividades ilícitas.
O banco central ordenou também o encerramento de contas em redes sociais que promoviam negociação de criptomoedas. Em meados de 2025, a Administração do Ciberespaço da China fechou mais de uma dezena de contas em plataformas como Weibo, Douyin e WeChat, que difundiam informações enganosas e incentivavam cidadãos chineses a realizar transações de moedas virtuais em bolsas offshore, contornando restrições nacionais.
Mais tarde, em 2025, os reguladores chineses mandaram corretoras e instituições de pesquisa suspender imediatamente a publicação de análises e a organização de seminários sobre stablecoins. O objetivo era impedir a legitimação dos ativos digitais por via de discursos académicos ou profissionais que pudessem confundir os cidadãos sobre o seu estatuto legal.
Administrações locais de Pequim, Suzhou e Zhejiang emitiram alertas públicos sobre esquemas de angariação ilícita de fundos ligados a moedas virtuais. Estes esquemas prometem retornos irrealistas e visam pessoas com baixa literacia financeira. Apesar das ações de fiscalização, os volumes de negociação de criptomoedas over-the-counter terão atingido cerca de 75 mil milhões $ nos primeiros nove meses de 2024, mostrando que os mercados clandestinos continuam ativos via redes peer-to-peer e canais encriptados, escapando à deteção regulatória.
As autoridades chinesas têm manifestado preocupação especial com a expansão global acelerada das stablecoins indexadas ao dólar, vendo-as como uma ameaça estratégica aos esforços de internacionalização do renminbi e à soberania monetária da China. O setor das stablecoins registou um crescimento explosivo, com capitalização total de mercado acima dos 300 mil milhões $. Os principais emissores, Tether e USD Coin, processaram mais de 27 mil milhões de milhões $ em liquidações no último ano, evidenciando o seu peso nas finanças digitais mundiais.
Pan Gongsheng, governador do Banco Popular da China, já advertiu que as stablecoins “amplificaram vulnerabilidades no sistema financeiro global” e não cumprem requisitos regulatórios essenciais de identificação de clientes e controlo anti-branqueamento de capitais. Defende que estes ativos operam fora do controlo financeiro tradicional, criando vulnerabilidades exploráveis para fins ilícitos e ameaçando a estabilidade dos sistemas monetários.
O banco central implementou medidas para impedir as grandes tecnológicas chinesas de emitirem stablecoins, mesmo sob o quadro regulatório mais permissivo de Hong Kong. Empresas como Ant Group e JD.com foram barradas no lançamento destes produtos, com os responsáveis a defenderem que a emissão de moeda deve ser monopólio do Estado. Esta posição reflete a visão fundamental de Pequim de que a criação e circulação monetária devem estar sob controlo governamental, e não das empresas privadas.
Wang Yongli, antigo vice-governador do Bank of China e referência na política financeira chinesa, alertou em meados de 2025 para as implicações estratégicas das stablecoins indexadas ao dólar. Escreveu que o domínio das moedas digitais denominadas em dólares “representa um desafio estratégico” para a internacionalização do renminbi. Wang avisou que, sem alternativas digitais competitivas sob controlo chinês, as iniciativas do país para promover a sua moeda em comércio e finanças internacionais poderão encontrar “obstáculos sérios”.
Esta visão explica a estratégia dual da China: proibição total de criptomoedas privadas e stablecoins, ao mesmo tempo que acelera o desenvolvimento do yuan digital estatal (e-CNY). O yuan digital representa a perspetiva oficial sobre as moedas digitais—totalmente controlado pelo banco central, concebido para reforçar a supervisão regulatória e apoiar a soberania monetária.
A reunião terminou com o compromisso dos responsáveis em aprofundar a cooperação interinstitucional, reforçar as capacidades de monitorização com tecnologias avançadas e intensificar a repressão a atividades ilegais para proteger os direitos patrimoniais dos cidadãos e manter a ordem económica. Pequim continua a apresentar o yuan digital estatal como a única alternativa legítima às criptomoedas privadas, mantendo tolerância zero para ativos digitais descentralizados fora do controlo governamental. Esta postura firme reflete a determinação em proteger a autoridade monetária e os mecanismos de controlo de capitais, mesmo perante o avanço de regulamentações noutras jurisdições.
A China proíbe a negociação de criptomoedas para prevenir o branqueamento de capitais, fraudes e atividades ilícitas. O governo encerra plataformas e ICO para minimizar riscos criminais e instabilidade financeira.
A proibição chinesa provoca vendas em pânico a nível mundial, sobretudo na Ásia, gerando volatilidade de preços. Abala a confiança dos investidores e leva a regulamentos mais rigorosos, alterando o panorama do mercado descentralizado.
Na China, a detenção e negociação pessoal de criptomoedas não são ilegais, mas não têm proteção legal. As atividades relacionadas estão sujeitas a regulação e monitorização estatal, com riscos de conformidade e possíveis restrições de conta.
Os investidores chineses podem recorrer a exposição indireta via mecanismos QDII ou veículos de investimento no estrangeiro. A negociação direta de criptomoedas permanece proibida no país. É aconselhável consultar especialistas jurídicos para estratégias de conformidade.
Apesar da proibição, os mercados globais mantêm-se ativos internacionalmente. Investidores estrangeiros, o sentimento de mercado e a negociação fora da China continuam a influenciar as variações de preços. Tanto o Bitcoin como o Ethereum são negociados globalmente em diversas regiões e plataformas.











