Abordei esse tema na semana passada e Andy, do Rollup, também buscou opiniões a respeito. A pergunta continua surgindo: “Quem realmente se beneficia da tokenização de ativos do mundo real?”
A resposta real é: praticamente todos — mas por motivos muito diferentes, em prazos distintos e com mecânicas de tese bastante variadas.
Investidores de varejo foram sistematicamente excluídos das classes de ativos com melhor desempenho por décadas. Não porque os ativos fossem complexos, mas porque a infraestrutura foi projetada para tickets grandes, barreiras de credenciamento e sistemas de liquidação lentos que tornam alocações pequenas inviáveis economicamente.
A tokenização não apenas reduz a barreira. Ela elimina a arquitetura que criou a barreira originalmente.
Pense no que significa “investir em crédito privado” como investidor de varejo hoje. Você não pode. Não de verdade. O mínimo normalmente é de US$ 250 mil a US$ 1 milhão. Você precisa ser credenciado. O fundo tem um lockup de 3 a 7 anos. Não existe mercado secundário. Você está sujeito ao cronograma do gestor.
Agora tokenize esse mesmo fundo:
Propriedade fracionada – Você não precisa de US$ 1 milhão. Precisa de US$ 100. O smart contract gerencia a economia de unidades que tornava alocações pequenas caras demais para administrar.
Acesso 24/7 – Sem horários de mercado. Sem janelas de liquidação. Sem esperar a transferência bancária. Você interage com o ativo quando quiser, de onde estiver.
Alcance global – Um investidor de varejo em Lagos, Jacarta ou São Paulo acessa o mesmo fundo tokenizado de tesouraria que alguém em Manhattan.
Composabilidade – Esta é a tese dentro da tese. Quando você detém um ativo tokenizado, ele não fica apenas parado na sua carteira. É capital programável. Você pode usá-lo como garantia em um protocolo de empréstimo. Pode utilizá-lo em uma estratégia de vault. Pode transferi-lo entre plataformas sem precisar de um corretor.
O Ponto Mais Profundo
O varejo não obtém apenas “acesso mais barato ao mesmo ativo”. O varejo ganha acesso a novas dinâmicas financeiras. A possibilidade de deter um Treasury tokenizado, usá-lo como garantia para tomar stablecoins emprestados e aplicar esse capital em uma estratégia de rendimento, tudo em uma tarde, sob custódia própria, sem sequer ligar para um gestor de patrimônio...
Antes da tokenização, o varejo era espectador nos mercados de capitais globais. Após a tokenização, o varejo torna-se participante. E a diferença entre essas duas posições é enorme.
Tese Central
Para emissores, a tese é simples: tokenização torna a captação de recursos mais rápida, barata e aberta a uma base de investidores muito maior. Todo emissor do planeta se importa com esses três fatores. A tokenização entrega todos simultaneamente.
Análise Completa
Veja o que realmente muda quando um emissor migra da emissão tradicional para a emissão tokenizada:
Emissão tradicional leva semanas ou meses para liquidar. Emissão tokenizada liquida em minutos ou horas. Emissão tradicional exige custodiante, agente de transferência, corretor e clearing house. Emissão tokenizada utiliza smart contracts para distribuição, compliance e liquidação. Emissão tradicional limita sua base de investidores por geografia, regulação e ticket mínimo. Emissão tokenizada abre para uma base global, 24/7, com entradas fracionadas. Emissão tradicional implica alto overhead administrativo – reconciliação manual, relatórios trimestrais, gestão de cap table. Emissão tokenizada automatiza relatórios, oferece cap table transparente onchain e dados em tempo real. Estruturas de produtos tradicionais são rígidas e lentas de modificar. Produtos tokenizados permitem tranches programáveis, termos de resgate e mecanismos de rendimento. E onde mínimos de US$ 100 mil a US$ 1 milhão excluem a maioria, a emissão fracionada abre o funil para milhares de investidores.
Tese do Capital
Emissores que tokenizam não estão apenas economizando com operações administrativas. Estão acessando capital que literalmente não podiam alcançar antes.
Um fundo tradicional de crédito privado atende 50 a 200 LPs institucionais. Leva meses para fechar uma rodada. O gestor dedica tempo e recursos significativos a relações com investidores, documentos legais e compliance para cada novo LP.
Um fundo tokenizado de crédito privado? Pode atender milhares de investidores. O compliance é programático. O onboarding é digital. Os mínimos são baixos o suficiente para que uma nova classe de capital — varejo, pequenas famílias, tesourarias cripto-nativas — possa participar.
Flexibilidade de Design de Produto
A emissão tokenizada também desbloqueia uma nova dimensão de design de produto. Como o ativo é programável, emissores podem:
Criar múltiplos tranches com diferentes perfis de risco/retorno, tudo em um único smart contract
Oferecer termos de resgate flexíveis – diários, semanais, mensais – programados
Construir mecanismos de rendimento dinâmicos ajustados por dados onchain
Estruturar produtos híbridos que misturam renda fixa com estratégias DeFi de rendimento
Nada disso é prático ou padrão na emissão tradicional. O overhead legal, operacional e administrativo seria proibitivo. Com tokenização, a lógica está no contrato e o custo da complexidade cai drasticamente.
Tese Central
Instituições não se preocupam com “cripto”. Não se preocupam com “descentralização” como filosofia. O que realmente importa para elas, de forma obsessiva, é risco de liquidação, custo operacional, precisão de relatórios e compliance regulatório.
A tokenização entrega melhorias mensuráveis em cada um desses pontos. Essa é a tese. E é por isso que os maiores nomes das finanças já estão presentes.
Liquidação – O Argumento dos US$ 2,4 Trilhões
O sistema financeiro atual opera, no melhor cenário, com liquidação T+2. Ou seja, ao negociar um título, são necessários dois dias úteis para liquidar a operação. Nesse intervalo:
O risco de contraparte está ativo. Se o outro lado der default antes da liquidação, você está exposto.
O capital fica travado. Você não pode reaplicar os recursos até a liquidação.
A complexidade operacional aumenta. Reconciliação, chamadas de margem e gestão de garantias existem porque a liquidação não é instantânea.
A tokenização move a liquidação para quase tempo real. T+0. Às vezes até mais rápido. Essa única mudança:
Libera capital que antes ficava preso em limbo de liquidação
Elimina risco de contraparte durante o período de liquidação
Reduz a necessidade de clearing houses, CCPs e toda a infraestrutura pós-negociação
O ganho econômico potencial estimado com essa mudança? Aproximadamente US$ 2,4 trilhões por ano globalmente em eficiência, com ganhos realistas entre US$ 31 bilhões e US$ 130 bilhões anuais até 2030.
BlackRock lançou o BUIDL – um fundo tokenizado de mercado monetário que superou US$ 1 bilhão em AUM
Franklin Templeton colocou cotas de fundos onchain via a plataforma BENJI
JPMorgan criou o Onyx para repo tokenizado e gestão de garantias
Goldman Sachs, HSBC, UBS e Citi estão todos pilotando ou implementando infraestrutura de ativos tokenizados
Eles não fazem isso porque blockchain é empolgante. Fazem porque é mais barato, rápido e reduz riscos.
||| Tese dos Builders – Ferramentas para um Mercado Multitrilionário
Toda grande transição de mercado tem vencedores de infraestrutura. A Corrida do Ouro da Califórnia teve fabricantes de picaretas. A internet teve empresas de servidores e roteadores. A computação em nuvem teve a AWS. A tokenização de ativos do mundo real está construindo sua própria stack de infraestrutura agora — e quem acertar será o encanamento de um mercado de mais de US$ 11 trilhões.
O ecossistema de tokenização requer uma camada inteiramente nova de infraestrutura financeira. Nem toda ela é glamourosa, mas toda ela é essencial:
A ligação entre o token onchain e o ativo offchain precisa ser protegida. Não é apenas “guardar chaves” — é manter a integridade legal e operacional entre o token digital e o ativo real. Custódia qualificada para ativos tokenizados está se tornando uma das funções mais críticas do ecossistema.
Verificação KYC/AML, checagem de credenciamento de investidores, restrições de transferência, controles jurisdicionais — tudo precisa funcionar perfeitamente, de forma programada e transfronteiriça. As empresas que constroem infraestrutura de identidade e verificação compliance para ativos tokenizados estão resolvendo um dos maiores desafios do setor.
Facilitar e garantir juridicamente que qualquer um possa tokenizar um ativo com estrutura adequada, documentação correta e representação onchain apropriada. As melhores plataformas de emissão abstraem a complexidade e permitem que emissores foquem no produto.
O backend que viabiliza liquidação instantânea. Inclui a ponte entre sistemas de liquidação onchain e offchain, o braço financeiro das negociações tokenizadas e a integração com rails bancários existentes.
Conectar dados do mundo real — valores patrimoniais líquidos, taxas de juros, eventos de default, avaliações imobiliárias, preços de commodities — a smart contracts onchain. Sem oráculos confiáveis, ativos tokenizados não mantêm preços precisos ou acionam eventos programados. Essa é a conexão entre o mundo real e a blockchain.
Estruturas legais como SPVs, trusts, fundos que sustentam ativos tokenizados. Sem arquitetura legal robusta, um token é apenas um número no registro, sem direito exigível. As firmas que acertam a estruturação legal são tão essenciais quanto os provedores de tecnologia.
Tese dos Mercados Emergentes – A Revolução Silenciosa que Muda Tudo
Esse é o benefício que quase ninguém nas finanças ocidentais comenta. E talvez seja o mais importante.
Para bilhões de pessoas em mercados emergentes, tokenização não é uma versão melhorada das finanças. É a primeira versão das finanças que realmente funciona para elas.
Em muitos mercados emergentes, o sistema financeiro é caracterizado por:
Alta inflação – Moedas locais perdem poder de compra rapidamente (Argentina, Nigéria, Turquia, Líbano)
Acesso bancário limitado – Grandes parcelas da população são desbancarizadas ou sub-bancarizadas
Controle de capitais – Governos restringem acesso a moedas estrangeiras e produtos de investimento internacional
Remessas caras – Transferências internacionais levam dias e custam de 5 a 10% em taxas
Sem acesso a rendimento global – Mesmo quem consegue poupar fica preso a instrumentos locais de baixo rendimento, que mal acompanham a inflação
Ativos tokenizados, junto com stablecoins, oferecem uma proposta fundamentalmente diferente:
Uma pessoa na Argentina pode deter um fundo tokenizado de Treasury dos EUA e receber rendimento em stablecoins atreladas ao dólar. Sem conta nos EUA. Sem transferências internacionais. Sem credenciamento. Apenas uma carteira digital e conexão à internet. Para quem vive num país onde a moeda local perdeu 40% do valor em um ano, isso não é uma melhoria marginal. É um resgate.
Em países de alta inflação, stablecoins — especialmente USDC e USDT — tornaram-se instrumentos de poupança de fato. As pessoas não as usam para negociar, mas para preservar poder de compra. Ativos tokenizados elevam isso ao oferecer rendimento sobre essas economias estáveis.
Antes da tokenização, um poupador de classe média no Sudeste Asiático ou na África Subsaariana tinha acesso zero a:
Treasuries dos EUA
Bonds corporativos de grau de investimento
Fundos de crédito privado diversificados
Produtos de investimento imobiliário
A tokenização torna tudo isso acessível, fracionado e disponível 24/7. Os mesmos produtos que investidores institucionais de Nova York usam para gerir portfólios passam a estar disponíveis para um professor em Manila ou um empreendedor em Nairóbi.
Remessas — essenciais para muitas economias emergentes — atualmente custam de 5 a 10% em taxas e levam dias para liquidar via rails bancários tradicionais. Transferências de stablecoins e ativos tokenizados liquidam em minutos por uma fração do custo. Para um mercado de mais de US$ 600 bilhões anuais, isso é uma mudança transformadora.
Acesso ao Salário Ganho
Infraestrutura de folha de pagamento que liquida instantaneamente onchain, em vez de rails bancários lentos e caros. Trabalhadores podem acessar salários em tempo real, em stablecoins, sem esperar ciclos tradicionais de pagamento.
Existem cerca de 1,4 bilhão de adultos desbancarizados no mundo. Bilhões mais são sub-bancarizados, com algum acesso a serviços financeiros, mas caro, lento e limitado. Tokenização e stablecoins juntos representam o primeiro caminho realista para inclusão financeira em larga escala, sem depender de expansão bancária tradicional.
Para essas populações, tokenização não significa tornar as finanças um pouco melhores. Significa torná-las acessíveis de fato.
Investidores de varejo – a tese é acesso e composabilidade. Propriedade fracionada, capital programável e acesso global 24/7 significam que mercados antes bloqueados por mínimos, geografia e credenciamento tornam-se abertos e utilizáveis.
Emissores – a tese é acesso e eficiência de capital. Distribuição via smart contracts, base global de investidores e produtos programáveis significam captação mais rápida, alcance maior, menor custo e novas possibilidades de design.
Instituições – a tese é liquidação e redução estrutural de riscos. Liquidação T+0, transparência onchain e compliance programável reduzem risco de contraparte, melhoram relatórios e diminuem custos operacionais.
Reguladores – a tese é visibilidade e enforcement em tempo real. Trilhas de auditoria onchain, compliance embutido e restrições programáveis levam a supervisão de algo reativo e auto-reportado para algo embutido, em tempo real e preciso.
Builders de infraestrutura – a tese é ferramentas e infraestrutura. Custódia, compliance, emissão, oráculos, liquidação e estruturação legal: estão construindo o encanamento padrão de um mercado de mais de US$ 11 trilhões.
Mercados emergentes – a tese é inclusão financeira em escala. Stablecoins como poupança, rendimento tokenizado, transferências instantâneas e acesso global representam a primeira infraestrutura financeira que realmente alcança bilhões de pessoas subatendidas.
Nada disso é automático. Tokenização não corrige ativos ruins. Não garante liquidez. Não elimina riscos.
Um bond tokenizado pode dar default. Um imóvel tokenizado pode perder valor. Um fundo tokenizado com estrutura legal fraca não dá ao detentor direito exigível em tribunal.
Os benefícios são reais — cada tese acima é respaldada por lógica estrutural e evidência concreta. Mas só se materializam quando estrutura legal, custódia, compliance e servicing são feitos corretamente.
O token é o último passo. Tudo que está por trás dele é o que realmente importa.
Se a estrutura legal for um SPV ruim em jurisdição opaca, sem recurso, o token é só um recibo bonito sem valor. Se o oráculo que fornece o NAV for pouco confiável, o preço onchain é ficção. Se o emissor não prestar serviço ao ativo — cobrar aluguéis, gerenciar defaults, distribuir rendimentos — a versão tokenizada será tão inerte quanto a tradicional.
Tokenização não é mágica. É infraestrutura. E infraestrutura só funciona quando é bem construída.
Então, Quem se Beneficia Mais?
Sinceramente? Depende do prazo.
Curto Prazo – Instituições e Emissores Ganham Primeiro
São eles que economizam dinheiro real com liquidação, compliance e overhead operacional agora. As economias de custo são mensuráveis e imediatas. Por isso os RWAs representados dominam o mercado atual — cerca de US$ 360 bilhões contra US$ 27 bilhões em ativos distribuídos. O caso institucional não depende de adoção de varejo ou liquidez de mercado secundário. Só precisa de infraestrutura melhor. E tokenização é infraestrutura melhor.
À medida que o mercado escala para os projetados US$ 11 trilhões até 2030, as empresas de ferramentas tornam-se indispensáveis. Custódia, compliance, oráculos, plataformas de emissão — quem se tornar o stack padrão capturará valor recorrente enorme. Este é o momento AWS da infraestrutura financeira.
À medida que os rails amadurecem, frameworks de compliance se estabilizam, mercados secundários se aprofundam e experiências de usuário melhoram, a revolução do acesso se concretiza para pessoas comuns. É quando a tese completa se realiza — quando qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode acessar, deter e compor com qualquer classe de ativos, 24/7, pelo celular.
A resposta para “quem se beneficia mais?” não é um só grupo.
É todo mundo, só que em momentos diferentes e por motivos distintos.
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