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As stablecoins estão se consolidando como infraestrutura financeira no nível de aplicação. Com regras mais claras após o GENIUS Act, marcas como Western Union, Klarna, Sony Bank e Fiserv estão deixando de apenas integrar USDC para “lançar nosso próprio dólar”, utilizando parceiros de emissão white-label.
O que viabiliza essa mudança é a multiplicação das plataformas de emissão de stablecoins como serviço. Até poucos anos atrás, a principal opção era a Paxos. Hoje, há mais de 10 caminhos sólidos, dependendo do projeto, incluindo plataformas recentes como Bridge e MoonPay, players com foco regulatório como Anchorage e grandes nomes como Coinbase.
Essa variedade faz a emissão parecer um serviço comoditizado. E, na camada de infraestrutura do token, de fato está cada vez mais próximo disso. Porém, a “comoditização” depende do perfil do comprador e do objetivo de cada caso.
Ao separar a infraestrutura do token das operações de liquidez, da postura regulatória e do pacote agregado (ramps, orquestração, contas, cartões), o mercado se mostra menos uma corrida ao preço zero e mais uma disputa segmentada, com o poder de precificação concentrado onde os resultados são mais difíceis de replicar.

O volume de stablecoins white-label está crescendo rapidamente, criando um novo e amplo mercado de emissores além de USDC/USDT. Fonte: Artemis
Se você tratar emissores como totalmente intercambiáveis, vai ignorar onde estão as restrições reais e onde as margens podem sobreviver.
É uma pergunta legítima. As empresas fazem isso por três motivos principais:
Vale notar que a maioria das moedas de marca própria não precisa atingir a escala do USDC para ser “bem-sucedida”. Em ambientes fechados ou semifechados, o KPI não é necessariamente o market cap. Pode ser o aumento de ARPU e de unit economics: quanto mais receita, retenção ou eficiência a funcionalidade de stablecoin proporciona.
Para analisar se a emissão é “comoditizada”, é preciso definir os trabalhos envolvidos: gestão de reservas, operações de smart contract e onchain, e distribuição.

Emissores concentram reservas e operações onchain; marcas controlam demanda e distribuição. A diferenciação está nos detalhes.
A emissão white-label permite que uma empresa (a marca) lance e distribua sua stablecoin, terceirizando as duas primeiras camadas para um emissor de registro.
Na prática, a responsabilidade se divide em dois blocos:
Operacionalmente, grande parte desse processo já é oferecida via APIs e dashboards, com prazos de lançamento que variam de dias a semanas, conforme a complexidade. Nem todo programa exige um emissor compatível com os EUA, mas para quem mira empresas norte-americanas, a postura de compliance já faz parte do produto, mesmo antes da aplicação formal do GENIUS.
Distribuição é o maior desafio. Em ambientes fechados, a adoção da moeda depende do produto. Fora deles, integrações e liquidez são gargalos, e emissores muitas vezes ajudam com liquidez secundária (exchanges/criadores de mercado, incentivos, seed). As marcas ainda controlam a demanda, mas esse “suporte go-to-market” é um ponto onde o emissor pode impactar significativamente os resultados.
Diferentes compradores atribuem pesos distintos a essas funções, por isso o mercado de emissores se agrupa em clusters específicos.
Comoditização ocorre quando o serviço é tão padronizado que os provedores se tornam intercambiáveis sem afetar o resultado, levando a uma competição por preço, não por diferenciação.
Se trocar de emissor altera o resultado que importa para você, a emissão não é comoditizada para o seu caso.
Na camada de infraestrutura do token, trocar de emissor geralmente não muda o resultado, tornando-os cada vez mais intercambiáveis. Muitos emissores já oferecem reservas tipo tesouraria, contratos de mint/burn auditados, controles administrativos básicos (pausa/congelamento), suporte às principais cadeias e APIs similares.
No entanto, marcas raramente buscam apenas a implantação do token. Elas buscam resultados, que variam conforme o perfil do comprador. O mercado se divide em alguns clusters, cada um com um ponto onde a substituição deixa de funcionar. Em cada cluster, as equipes acabam com poucas opções realmente viáveis.

Emissores se agrupam pela postura de compliance empresarial e estilo de onboarding. Enterprise & FI (canto inferior direito), Fintech/carteiras (meio), DeFi (canto superior esquerdo).
A diferenciação está migrando para camadas superiores, especialmente no segmento de fintech/carteiras. Com a emissão virando um recurso, emissores competem agregando trilhos adjacentes que completam a entrega e ajudam na distribuição: ramps regulados, contas virtuais, orquestração de pagamentos, custódia e emissão de cartões. Isso preserva o poder de precificação ao impactar prazos e resultados operacionais.

Mais de 10 emissores de stablecoin white-label, mas para cada comprador as opções se resumem a poucos nomes
Nesse contexto, a questão da comoditização fica evidente.
A emissão de stablecoins é comoditizada na camada do token, mas ainda não na camada do resultado, pois as restrições de cada comprador tornam os provedores insubstituíveis.
Com a evolução do mercado, emissores de cada cluster podem acabar convergindo para ofertas semelhantes, mas esse ponto ainda não foi alcançado.
Se a infraestrutura do token já é requisito básico e a diferenciação nas bordas está se esvaindo, resta saber se algum emissor conseguirá construir uma barreira competitiva sustentável. Hoje, parece mais uma estratégia de aquisição de clientes, com retenção baseada em custos de troca. Trocar de emissor envolve reservas/custódia, compliance, resgates e integrações, ou seja, não é uma substituição instantânea.
Além do empacotamento, o caminho mais plausível para um fosso duradouro são os efeitos de rede. Se moedas de marca própria precisarem cada vez mais de conversibilidade 1:1 e liquidez compartilhada, o valor pode se concentrar no emissor ou protocolo que se tornar a rede padrão de interoperabilidade. A dúvida é se essa rede será de propriedade do emissor (captura forte) ou um padrão neutro (adoção ampla, captura limitada).
Vale observar: a interoperabilidade será apenas um recurso comoditizado ou a principal fonte de poder de precificação?
Em resumo:
O que acompanhar: se stablecoins de marca própria vão convergir para poucas redes de conversibilidade ou se a interoperabilidade se tornará um padrão neutro. De todo modo, a lição é clara: o token é só o ponto de partida. O negócio está em tudo ao redor dele.





