Numum dos maiores casos de branqueamento de dinheiro já apresentados pelo Departamento de Justiça dos EUA, procuradores federais acusaram o cidadão venezuelano Jorge Figueira de lavar aproximadamente $1 mil milhões através de uma rede sofisticada de carteiras de criptomoedas e empresas de fachada.
A operação, ativa de 2018 a 2025, alegadamente utilizou a stablecoin USDT da Tether na blockchain Tron pela sua rapidez e baixo custo, processando até $700 milhões por mês. Este caso emblemático sublinha uma mudança dramática no crime em criptomoedas, onde as stablecoins agora dominam 84% de todo o volume de transações ilícitas, de acordo com dados da Chainalysis. Também destaca a pressão intensa sobre reguladores e emissores como a Tether, que recentemente congelou $182 milhões em ativos ligados ao esquema, para fiscalizar os próprios ecossistemas que permitem.
Anatomia de uma Máquina de Branqueamento de Bilhões de Dólares
A queixa criminal desclassificada no Distrito Leste da Virgínia apresenta um quadro de uma operação de crime financeiro extensa e profissionalizada. Jorge Figueira, de 59 anos, é acusado de dirigir uma rede que movimentava fundos ilícitos através de continentes usando uma abordagem em múltiplas camadas, desenhada para obscurecer a origem e o destino do dinheiro. Não se tratava de uma transferência simples peer-to-peer, mas de um processo estruturado que imitava serviços financeiros legítimos, explorando a natureza global e porosa da infraestrutura de criptomoedas.
Segundo o FBI, a operação seguia um padrão calculado e em múltiplas etapas. Primeiro, o dinheiro em espécie era convertido em criptomoeda, principalmente na stablecoin USDT da Tether. Estes ativos digitais eram então encaminhados através de um labirinto complexo de carteiras privadas para quebrar a cadeia de custódia na blockchain. A próxima etapa crítica envolvia o uso de provedores de liquidez de criptomoedas não regulados ou pouco regulados para trocar o USDT de volta para dólares americanos. Finalmente, a moeda fiduciária “limpa” era canalizada através de contas bancárias controladas pela rede de empresas de fachada de Figueira antes de chegar aos seus destinos finais, que incluíam jurisdições de alto risco como Colômbia, China, Panamá e México.
A escala da operação é impressionante. O FBI identificou aproximadamente $1 mil milhões em criptomoedas a fluir através de carteiras ligadas a Figueira. Em comunicações interceptadas citadas em documentos judiciais, Figueira alegadamente se gabou de gerir até $700 milhões por mês e afirmou que podia receber uma única transação de $100 milhões na sua carteira digital. Este caso exemplifica como as criptomoedas, destinadas a democratizar as finanças, podem ser utilizadas por organizações criminosas sofisticadas para operar numa escala e eficiência difíceis de alcançar no sistema bancário tradicional, mais monitorizado.
A Nova Face do Crime em Criptomoedas: A Supremacia das Stablecoins
O caso Figueira é um exemplo clássico de uma mudança sísmica mais ampla no panorama do crime relacionado com criptomoedas. Durante anos, o Bitcoin foi sinónimo de mercados ilícitos na dark web e pagamentos de ransomware devido à sua pseudo-anonimidade e ao seu estatuto de pioneiro. No entanto, dados da empresa de análise blockchain Chainalysis revelam uma reversão completa. Em 2025, endereços ilícitos de criptomoedas receberam pelo menos $154 mil milhões, um aumento de 162% face ao ano anterior, com stablecoins como USDT a representarem 84% de todo o volume ilícito.
Esta mudança dramática, de Bitcoin (que agora representa apenas cerca de 7% da atividade ilícita) para stablecoins, é impulsionada por vantagens práticas para os criminosos. As stablecoins oferecem previsibilidade de preço, crucial para grandes transações ao longo do tempo, ao contrário de ativos voláteis como Bitcoin ou Ethereum. Permitem liquidações rápidas e transfronteiriças 24/7, contornando horários bancários tradicionais e restrições geográficas. Além disso, a sua profunda liquidez, tanto em trocas centralizadas como descentralizadas, torna-as altamente fungíveis e fáceis de converter em moeda fiduciária local quase em qualquer parte do mundo.
Dentro do ecossistema de stablecoins, a Tron emergiu como a blockchain preferida para atividades ilícitas. Como alegadamente afirmou Figueira em mensagens citadas em tribunal, USDT é usado “muito para lavar dinheiro… para transferir dinheiro de forma rápida.” As taxas de transação mais baixas e tempos de confirmação mais rápidos na rede Tron, em comparação com Ethereum, tornam-na mais económica e eficiente para movimentar grandes somas. Isto apresenta um desafio de conformidade significativo, obrigando reguladores e forças de segurança a aprofundar a sua expertise técnica na rastreabilidade de fundos através de múltiplas redes blockchain em evolução.
A Resposta de Execução: Congelamentos pela Tether e Repressão Regulamentar
A escala impressionante do caso Figueira catalisou uma resposta enérgica e multifacetada por parte das autoridades dos EUA e da própria indústria de criptomoedas. A Procuradora Lindsey Halligan enquadrou as acusações como um ataque direto a um sistema que “permite às organizações criminosas transnacionais operar, expandir e causar danos no mundo real.” Esta retórica indica que os procuradores federais estão agora a priorizar o crime financeiro facilitado por criptomoedas ao mais alto nível, tratando-o com a mesma gravidade do branqueamento de dinheiro de grande escala tradicional.
Uma ferramenta fundamental nesta resposta é a crescente colaboração com os atores do setor. Apenas dias após a apresentação das acusações contra Figueira, a Tether congelou voluntariamente mais de $182 milhões em USDT em cinco carteiras Tron ligadas à investigação. Esta ação fez parte de um pedido formal das autoridades e continua uma tendência proativa de conformidade. Entre 2023 e 2025, a Tether congelou aproximadamente $3,3 mil milhões em ativos ligados a mais de 7.000 endereços de carteiras, demonstrando uma mudança clara, embora controversa, para trabalhar dentro do quadro regulatório na fiscalização da sua própria rede.
Este caso faz parte de uma tempestade regulatória mais ampla. O Procurador do Distrito de Manhattan, Alvin Bragg, instou os legisladores de Nova Iorque a criminalizar operações de criptomoedas sem licença, rotulando-as de “$51 bilhão de economia criminosa.” Simultaneamente, o FBI relata um aumento acentuado nas queixas relacionadas com criptomoedas, com perdas de fraudes com ATMs de criptomoedas a subir de $246 milhões em 2024 para $333,5 milhões nos primeiros onze meses de 2025. A mensagem das autoridades é inequívoca: a suposta anonimidade das criptomoedas está a diminuir, e aqueles que explorarem estes sistemas para crimes de grande escala enfrentarão uma perseguição implacável e consequências severas.
A Dualidade: Criptomoedas na Crise Económica da Venezuela
Para compreender totalmente o contexto deste caso, é necessário analisar o papel complexo e desesperado que as criptomoedas desempenham no país de origem de Figueira, a Venezuela. Atingida por hiperinflação, colapso económico e sanções rigorosas dos EUA, a Venezuela tornou-se um ponto quente global para a adoção legítima de criptomoedas e atividades financeiras ilícitas. Para os venezuelanos comuns, as criptomoedas como Bitcoin e stablecoins são uma tábua de salvação — uma forma de preservar poupanças, receber remessas e comprar bens essenciais à medida que o bolívar local se torna inútil.
Esta adoção legítima é massiva. As transações em criptomoedas na Venezuela aumentaram 110% ano após ano no segundo trimestre de 2024. Analistas estimam que aproximadamente $20 mil milhões em criptomoedas entraram na economia venezuelana em 2024, representando uma parte significativa do PIB do país, que é de $100 mil milhões. Para muitos, é uma ferramenta de sobrevivência económica e uma proteção contra um Estado falido.
No entanto, este mesmo ambiente de necessidade, regulamentação fraca e controles de capitais cria um terreno fértil para branqueamento de dinheiro e evasão de sanções. A linha entre um cidadão a usar USDT para comprar mantimentos e uma rede criminosa a mover lucros ilícitos é muitas vezes difusa pela mesma infraestrutura tecnológica. O caso Figueira expõe esta dualidade: uma tecnologia que empodera cidadãos em crise é simultaneamente explorada por redes criminosas que operam nas sombras dessa própria crise. Apresenta um dilema profundo para os formuladores de políticas globais sobre como combater os maus atores sem destruir uma tábua de salvação financeira para milhões de inocentes.
As Ferramentas em Evolução do Crime em Criptomoedas e Conformidade
Os métodos e tecnologias utilizados no caso Figueira refletem o estado atual do jogo entre criminosos e autoridades no espaço das criptomoedas:
Aspecto
Adaptação criminosa (como visto no caso Figueira)
Resposta da aplicação da lei & setor
Ativo principal
Stablecoins (USDT) para estabilidade de preço e liquidez.
Chainalysis & análise de blockchain para rastrear fluxos de stablecoin entre carteiras.
Blockchain preferida
Rede Tron para taxas baixas e transações rápidas.
Ferramentas de análise cross-chain para seguir fundos de Bitcoin, para Tron, para Ethereum.
Método de obfuscação
Camuflagem através de múltiplas carteiras e empresas de fachada.
Algoritmos de agrupamento de endereços para ligar carteiras aparentemente distintas a uma mesma entidade.
Ponto de saída
Provedores de liquidez não regulados e trocas cúmplices.
Aplicação de KYC/AML em trocas; função de congelamento da Tether para endereços na lista negra.
Escala
Operações industrializadas movendo centenas de milhões mensalmente.
Priorizar alvos de alto valor para processo penal, visando o máximo efeito dissuasor.
O Caminho a Seguir: Implicações para a Regulação e Segurança em Criptomoedas
A conclusão do caso Figueira, seja por confissão de culpa ou julgamento, provocará ondas de choque tanto na indústria de criptomoedas quanto no submundo do crime. Para projetos legítimos e investidores, reforça a necessidade urgente de programas de conformidade robustos e transparentes. As trocas, provedores de carteiras e protocolos DeFi enfrentarão ainda maior pressão para implementar verificações de know-your-customer (KYC) e anti-lavagem de dinheiro (AML), não apenas como uma formalidade regulatória, mas como uma medida de segurança essencial.
Para o utilizador comum de criptomoedas, este caso serve como um lembrete poderoso da importância da segurança e da proveniência. Interagir apenas com trocas totalmente reguladas e conformes, usar carteiras de autocustódia de forma responsável e estar hiper-vigilante contra fraudes deixou de ser apenas uma boa prática — são defesas essenciais num ecossistema sob escrutínio. O futuro do crescimento e aceitação generalizada da indústria depende da sua capacidade de isolar e eliminar os elementos criminosos que casos como o de Figueira expõem.
Por fim, o esquema de branqueamento de $1 bilhões marca um momento decisivo. Comprova que as forças de segurança podem e vão rastrear operações sofisticadas de criptomoedas. Obriga a uma reflexão para os emissores de stablecoins quanto à sua responsabilidade. E exige uma conversa global e nuançada sobre regulação — que proteja os sistemas financeiros sem sufocar a inovação ou punir aqueles em países em crise que dependem das criptomoedas para sobreviver. O mito da anonimidade morreu; a era das criptomoedas responsáveis chegou.
FAQ
Q1: Do que é que Jorge Figueira é acusado?
A: Jorge Figueira, cidadão venezuelano, é acusado pelos procuradores federais dos EUA de conspirar para lavar aproximadamente $1 mil milhões. Alegadamente, dirigiu uma rede que usou criptomoedas ( principalmente USDT na rede Tron), empresas de fachada e contas bancárias para obscurecer a origem e o movimento de fundos ilícitos entre 2018 e 2025.
Q2: Por que é que stablecoins como USDT agora são preferidas pelos criminosos em relação ao Bitcoin?
A: As stablecoins tornaram-se a ferramenta dominante para atividades ilícitas em criptomoedas (84% do volume em 2025) devido a três fatores principais: estabilidade de preço (ao contrário do Bitcoin volátil), transações rápidas e baratas transfronteiriças, e alta liquidez que facilita a conversão em dinheiro em qualquer lugar. A rede Tron, em particular, é preferida pelos seus baixos custos de transação.
Q3: Como é que a Tether (a empresa por trás do USDT) esteve envolvida neste caso?
A: Após pedidos das autoridades relacionados com a investigação a Figueira, a Tether congelou voluntariamente mais de $182 milhões em USDT detidos em carteiras Tron ligadas à investigação. Esta ação faz parte do esforço de conformidade mais amplo da Tether, que desde 2023 congelou aproximadamente $3,3 mil milhões em ativos. O caso destaca a crescente colaboração entre empresas de criptomoedas e autoridades.
Q4: O que é que este caso significa para o futuro da regulação de criptomoedas?
A: Esta acusação emblemática indica uma escalada importante na repressão dos EUA contra crimes financeiros baseados em criptomoedas. Provavelmente levará a requisitos mais rigorosos de AML/KYC para todos os provedores de serviços de criptomoedas, maior pressão sobre emissores de stablecoins para fiscalizar transações, e mais recursos para agências de aplicação da lei especializadas em análise de blockchain.
Q5: Como é que a situação económica da Venezuela se relaciona com este caso?
A: A hiperinflação e a crise económica na Venezuela têm impulsionado uma adoção massiva de criptomoedas pelos cidadãos ( com uma entrada estimada de $20 mil milhões em 2024). No entanto, este mesmo ambiente de regulamentação fraca e controles de capitais também oferece cobertura para operações de grande escala de branqueamento de dinheiro e evasão de sanções, criando uma dualidade complexa para as criptomoedas no país.
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EUA Acusam Homem Venezuelano em Caso de Lavagem de Crypto de $1 Bilhões, Destacando Riscos dos Stablecoins
Numum dos maiores casos de branqueamento de dinheiro já apresentados pelo Departamento de Justiça dos EUA, procuradores federais acusaram o cidadão venezuelano Jorge Figueira de lavar aproximadamente $1 mil milhões através de uma rede sofisticada de carteiras de criptomoedas e empresas de fachada.
A operação, ativa de 2018 a 2025, alegadamente utilizou a stablecoin USDT da Tether na blockchain Tron pela sua rapidez e baixo custo, processando até $700 milhões por mês. Este caso emblemático sublinha uma mudança dramática no crime em criptomoedas, onde as stablecoins agora dominam 84% de todo o volume de transações ilícitas, de acordo com dados da Chainalysis. Também destaca a pressão intensa sobre reguladores e emissores como a Tether, que recentemente congelou $182 milhões em ativos ligados ao esquema, para fiscalizar os próprios ecossistemas que permitem.
Anatomia de uma Máquina de Branqueamento de Bilhões de Dólares
A queixa criminal desclassificada no Distrito Leste da Virgínia apresenta um quadro de uma operação de crime financeiro extensa e profissionalizada. Jorge Figueira, de 59 anos, é acusado de dirigir uma rede que movimentava fundos ilícitos através de continentes usando uma abordagem em múltiplas camadas, desenhada para obscurecer a origem e o destino do dinheiro. Não se tratava de uma transferência simples peer-to-peer, mas de um processo estruturado que imitava serviços financeiros legítimos, explorando a natureza global e porosa da infraestrutura de criptomoedas.
Segundo o FBI, a operação seguia um padrão calculado e em múltiplas etapas. Primeiro, o dinheiro em espécie era convertido em criptomoeda, principalmente na stablecoin USDT da Tether. Estes ativos digitais eram então encaminhados através de um labirinto complexo de carteiras privadas para quebrar a cadeia de custódia na blockchain. A próxima etapa crítica envolvia o uso de provedores de liquidez de criptomoedas não regulados ou pouco regulados para trocar o USDT de volta para dólares americanos. Finalmente, a moeda fiduciária “limpa” era canalizada através de contas bancárias controladas pela rede de empresas de fachada de Figueira antes de chegar aos seus destinos finais, que incluíam jurisdições de alto risco como Colômbia, China, Panamá e México.
A escala da operação é impressionante. O FBI identificou aproximadamente $1 mil milhões em criptomoedas a fluir através de carteiras ligadas a Figueira. Em comunicações interceptadas citadas em documentos judiciais, Figueira alegadamente se gabou de gerir até $700 milhões por mês e afirmou que podia receber uma única transação de $100 milhões na sua carteira digital. Este caso exemplifica como as criptomoedas, destinadas a democratizar as finanças, podem ser utilizadas por organizações criminosas sofisticadas para operar numa escala e eficiência difíceis de alcançar no sistema bancário tradicional, mais monitorizado.
A Nova Face do Crime em Criptomoedas: A Supremacia das Stablecoins
O caso Figueira é um exemplo clássico de uma mudança sísmica mais ampla no panorama do crime relacionado com criptomoedas. Durante anos, o Bitcoin foi sinónimo de mercados ilícitos na dark web e pagamentos de ransomware devido à sua pseudo-anonimidade e ao seu estatuto de pioneiro. No entanto, dados da empresa de análise blockchain Chainalysis revelam uma reversão completa. Em 2025, endereços ilícitos de criptomoedas receberam pelo menos $154 mil milhões, um aumento de 162% face ao ano anterior, com stablecoins como USDT a representarem 84% de todo o volume ilícito.
Esta mudança dramática, de Bitcoin (que agora representa apenas cerca de 7% da atividade ilícita) para stablecoins, é impulsionada por vantagens práticas para os criminosos. As stablecoins oferecem previsibilidade de preço, crucial para grandes transações ao longo do tempo, ao contrário de ativos voláteis como Bitcoin ou Ethereum. Permitem liquidações rápidas e transfronteiriças 24/7, contornando horários bancários tradicionais e restrições geográficas. Além disso, a sua profunda liquidez, tanto em trocas centralizadas como descentralizadas, torna-as altamente fungíveis e fáceis de converter em moeda fiduciária local quase em qualquer parte do mundo.
Dentro do ecossistema de stablecoins, a Tron emergiu como a blockchain preferida para atividades ilícitas. Como alegadamente afirmou Figueira em mensagens citadas em tribunal, USDT é usado “muito para lavar dinheiro… para transferir dinheiro de forma rápida.” As taxas de transação mais baixas e tempos de confirmação mais rápidos na rede Tron, em comparação com Ethereum, tornam-na mais económica e eficiente para movimentar grandes somas. Isto apresenta um desafio de conformidade significativo, obrigando reguladores e forças de segurança a aprofundar a sua expertise técnica na rastreabilidade de fundos através de múltiplas redes blockchain em evolução.
A Resposta de Execução: Congelamentos pela Tether e Repressão Regulamentar
A escala impressionante do caso Figueira catalisou uma resposta enérgica e multifacetada por parte das autoridades dos EUA e da própria indústria de criptomoedas. A Procuradora Lindsey Halligan enquadrou as acusações como um ataque direto a um sistema que “permite às organizações criminosas transnacionais operar, expandir e causar danos no mundo real.” Esta retórica indica que os procuradores federais estão agora a priorizar o crime financeiro facilitado por criptomoedas ao mais alto nível, tratando-o com a mesma gravidade do branqueamento de dinheiro de grande escala tradicional.
Uma ferramenta fundamental nesta resposta é a crescente colaboração com os atores do setor. Apenas dias após a apresentação das acusações contra Figueira, a Tether congelou voluntariamente mais de $182 milhões em USDT em cinco carteiras Tron ligadas à investigação. Esta ação fez parte de um pedido formal das autoridades e continua uma tendência proativa de conformidade. Entre 2023 e 2025, a Tether congelou aproximadamente $3,3 mil milhões em ativos ligados a mais de 7.000 endereços de carteiras, demonstrando uma mudança clara, embora controversa, para trabalhar dentro do quadro regulatório na fiscalização da sua própria rede.
Este caso faz parte de uma tempestade regulatória mais ampla. O Procurador do Distrito de Manhattan, Alvin Bragg, instou os legisladores de Nova Iorque a criminalizar operações de criptomoedas sem licença, rotulando-as de “$51 bilhão de economia criminosa.” Simultaneamente, o FBI relata um aumento acentuado nas queixas relacionadas com criptomoedas, com perdas de fraudes com ATMs de criptomoedas a subir de $246 milhões em 2024 para $333,5 milhões nos primeiros onze meses de 2025. A mensagem das autoridades é inequívoca: a suposta anonimidade das criptomoedas está a diminuir, e aqueles que explorarem estes sistemas para crimes de grande escala enfrentarão uma perseguição implacável e consequências severas.
A Dualidade: Criptomoedas na Crise Económica da Venezuela
Para compreender totalmente o contexto deste caso, é necessário analisar o papel complexo e desesperado que as criptomoedas desempenham no país de origem de Figueira, a Venezuela. Atingida por hiperinflação, colapso económico e sanções rigorosas dos EUA, a Venezuela tornou-se um ponto quente global para a adoção legítima de criptomoedas e atividades financeiras ilícitas. Para os venezuelanos comuns, as criptomoedas como Bitcoin e stablecoins são uma tábua de salvação — uma forma de preservar poupanças, receber remessas e comprar bens essenciais à medida que o bolívar local se torna inútil.
Esta adoção legítima é massiva. As transações em criptomoedas na Venezuela aumentaram 110% ano após ano no segundo trimestre de 2024. Analistas estimam que aproximadamente $20 mil milhões em criptomoedas entraram na economia venezuelana em 2024, representando uma parte significativa do PIB do país, que é de $100 mil milhões. Para muitos, é uma ferramenta de sobrevivência económica e uma proteção contra um Estado falido.
No entanto, este mesmo ambiente de necessidade, regulamentação fraca e controles de capitais cria um terreno fértil para branqueamento de dinheiro e evasão de sanções. A linha entre um cidadão a usar USDT para comprar mantimentos e uma rede criminosa a mover lucros ilícitos é muitas vezes difusa pela mesma infraestrutura tecnológica. O caso Figueira expõe esta dualidade: uma tecnologia que empodera cidadãos em crise é simultaneamente explorada por redes criminosas que operam nas sombras dessa própria crise. Apresenta um dilema profundo para os formuladores de políticas globais sobre como combater os maus atores sem destruir uma tábua de salvação financeira para milhões de inocentes.
As Ferramentas em Evolução do Crime em Criptomoedas e Conformidade
Os métodos e tecnologias utilizados no caso Figueira refletem o estado atual do jogo entre criminosos e autoridades no espaço das criptomoedas:
O Caminho a Seguir: Implicações para a Regulação e Segurança em Criptomoedas
A conclusão do caso Figueira, seja por confissão de culpa ou julgamento, provocará ondas de choque tanto na indústria de criptomoedas quanto no submundo do crime. Para projetos legítimos e investidores, reforça a necessidade urgente de programas de conformidade robustos e transparentes. As trocas, provedores de carteiras e protocolos DeFi enfrentarão ainda maior pressão para implementar verificações de know-your-customer (KYC) e anti-lavagem de dinheiro (AML), não apenas como uma formalidade regulatória, mas como uma medida de segurança essencial.
Para o utilizador comum de criptomoedas, este caso serve como um lembrete poderoso da importância da segurança e da proveniência. Interagir apenas com trocas totalmente reguladas e conformes, usar carteiras de autocustódia de forma responsável e estar hiper-vigilante contra fraudes deixou de ser apenas uma boa prática — são defesas essenciais num ecossistema sob escrutínio. O futuro do crescimento e aceitação generalizada da indústria depende da sua capacidade de isolar e eliminar os elementos criminosos que casos como o de Figueira expõem.
Por fim, o esquema de branqueamento de $1 bilhões marca um momento decisivo. Comprova que as forças de segurança podem e vão rastrear operações sofisticadas de criptomoedas. Obriga a uma reflexão para os emissores de stablecoins quanto à sua responsabilidade. E exige uma conversa global e nuançada sobre regulação — que proteja os sistemas financeiros sem sufocar a inovação ou punir aqueles em países em crise que dependem das criptomoedas para sobreviver. O mito da anonimidade morreu; a era das criptomoedas responsáveis chegou.
FAQ
Q1: Do que é que Jorge Figueira é acusado?
A: Jorge Figueira, cidadão venezuelano, é acusado pelos procuradores federais dos EUA de conspirar para lavar aproximadamente $1 mil milhões. Alegadamente, dirigiu uma rede que usou criptomoedas ( principalmente USDT na rede Tron), empresas de fachada e contas bancárias para obscurecer a origem e o movimento de fundos ilícitos entre 2018 e 2025.
Q2: Por que é que stablecoins como USDT agora são preferidas pelos criminosos em relação ao Bitcoin?
A: As stablecoins tornaram-se a ferramenta dominante para atividades ilícitas em criptomoedas (84% do volume em 2025) devido a três fatores principais: estabilidade de preço (ao contrário do Bitcoin volátil), transações rápidas e baratas transfronteiriças, e alta liquidez que facilita a conversão em dinheiro em qualquer lugar. A rede Tron, em particular, é preferida pelos seus baixos custos de transação.
Q3: Como é que a Tether (a empresa por trás do USDT) esteve envolvida neste caso?
A: Após pedidos das autoridades relacionados com a investigação a Figueira, a Tether congelou voluntariamente mais de $182 milhões em USDT detidos em carteiras Tron ligadas à investigação. Esta ação faz parte do esforço de conformidade mais amplo da Tether, que desde 2023 congelou aproximadamente $3,3 mil milhões em ativos. O caso destaca a crescente colaboração entre empresas de criptomoedas e autoridades.
Q4: O que é que este caso significa para o futuro da regulação de criptomoedas?
A: Esta acusação emblemática indica uma escalada importante na repressão dos EUA contra crimes financeiros baseados em criptomoedas. Provavelmente levará a requisitos mais rigorosos de AML/KYC para todos os provedores de serviços de criptomoedas, maior pressão sobre emissores de stablecoins para fiscalizar transações, e mais recursos para agências de aplicação da lei especializadas em análise de blockchain.
Q5: Como é que a situação económica da Venezuela se relaciona com este caso?
A: A hiperinflação e a crise económica na Venezuela têm impulsionado uma adoção massiva de criptomoedas pelos cidadãos ( com uma entrada estimada de $20 mil milhões em 2024). No entanto, este mesmo ambiente de regulamentação fraca e controles de capitais também oferece cobertura para operações de grande escala de branqueamento de dinheiro e evasão de sanções, criando uma dualidade complexa para as criptomoedas no país.