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Guerra do Irão: Dor a Curto Prazo, Ganho a Longo Prazo para a China
( MENAFN- Asia Times ) A China respondeu aos ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã com forte condenação diplomática.
Num artigo publicado a 1 de março, a agência de notícias estatal chinesa Xinhua chamou aos ataques de uma “violação flagrante” dos propósitos e princípios da carta das Nações Unidas. O mesmo artigo considerou a intervenção uma saída dos “normas fundamentais das relações internacionais”.
Esta reação assemelhou-se à resposta da China à captura pelo EUA do antigo líder venezuelano, Nicolás Maduro, no início de janeiro. Na altura, os responsáveis chineses condenaram o que descreveram como uma violação do direito internacional. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, alertou que nenhum país deve atuar como um “polícia mundial” ou “reivindicar-se juiz internacional”.
Para além da condenação diplomática, a contribuição mais significativa da China para o conflito no Irã até agora tem vindo do seu sistema de navegação por satélite, BeiDou. Nos últimos anos, o BeiDou emergiu como uma possível alternativa ao Sistema de Posicionamento Global (GPS), que é propriedade e controlado pelo governo dos EUA.
Durante a guerra de 12 dias entre o Irã e Israel em 2025, a interferência generalizada no GPS causou uma disrupção significativa nos sistemas civis e militares iranianos. Desativar o GPS e passar a usar o BeiDou deu ao exército iraniano mais profundidade estratégica. Assim, por exemplo, permitiu uma melhor monitorização dos ativos militares americanos.
O conflito no Irã provavelmente trará várias questões para a China. O Irã é uma fonte chave de petróleo para o governo chinês, exportando mais de 520 milhões de barris de crude para a China em 2025. Apenas a Arábia Saudita forneceu mais petróleo à China nesse ano do que o Irã.
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Ainda não se sabe qual será o efeito final do conflito nas exportações de petróleo iraniano. Mas já está a causar uma disrupção significativa no Estreito de Hormuz, a principal rota que conecta os portos iranianos no Golfo Pérsico a o mar aberto, passando por alguns dos principais fornecedores de petróleo da região.
A dor económica provocada por esta disrupção será provavelmente sentida de forma aguda pela China, que importa mais da metade do sua crude de países do Golfo.
Ao mesmo tempo, a perceção de fraqueza da China por não ter respondido de forma proativa ao conflito pode levar alguns Estados a serem cautelosos em aprofundar relações com Pequim. Alguns países, especialmente na América Latina, já procuraram reduzir a sua dependência da China no último ano, após pressões e ameaças do governo dos EUA.
Por exemplo, em janeiro, o Supremo Tribunal do Panamá invalidou um contrato que permitia à Panama Ports Company, uma subsidiária de uma empresa de Hong Kong, operar dois portos no canal do Panamá. A decisão ocorreu um ano após Trump ameaçar tomar controlo do canal para limitar a influência chinesa na via marítima.
Por outro lado, é igualmente possível que a guerra ajude os esforços mais amplos de Pequim para se posicionar como um contrapeso global aos EUA. Países que anteriormente mantinham relações frias com a China, como o Canadá, a Alemanha e o Reino Unido, já procuraram fortalecer os laços económicos com a China nos últimos meses, preocupados com a fiabilidade dos EUA como parceiro.
Wang Yi, por sua vez, usou a sua participação na Conferência de Segurança de Munique em fevereiro para falar da necessidade de a ONU e de uma maior cooperação e colaboração globais. A imprevisibilidade da administração Trump, mais recentemente evidenciada na sua decisão de atacar o Irã, pode reforçar a mensagem de estabilidade da China.
Entretanto, Pequim pode apontar às ações de retaliação do Irã contra os Estados do Golfo como um aviso às nações sobre as consequências de se alinharem com Washington. Isso pode levantar dúvidas entre aliados tradicionais dos EUA na Ásia, como o Japão e a Coreia do Sul, sobre se o sistema de alianças na região, há muito mantido por Washington, pode realmente garantir a segurança desses Estados.
Mudança para a Ásia
Embora seja difícil prever como o conflito no Irã se desenrolará, alguns analistas veem a possibilidade de uma guerra prolongada.
Este cenário também tem implicações para a China, pois poderia distrair os EUA do seu foco de mudança para a Ásia. Os EUA há muito querem deslocar a sua política externa do foco na Europa e no Médio Oriente para o Indo-Pacífico, para contrabalançar o crescimento da China.
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Os EUA não são estranhos a guerras prolongadas no Médio Oriente, tendo-se envolvido em conflitos no Iraque e no Afeganistão desde o início dos anos 2000. Ambos os conflitos dificultaram e atrasaram a mudança de foco para a Ásia, levando alguns observadores a chamarem a isso de uma “década perdida” para os EUA, que permitiu à China expandir a sua influência.
Um envolvimento prolongado no Irã esgotaria recursos que poderiam ser usados para reforçar a dissuasão dos EUA no Indo-Pacífico, criando uma oportunidade para a China consolidar ainda mais o seu papel como principal ator regional na Ásia. Além disso, poderia ajudar Pequim a preparar-se para futuros conflitos.
O conflito no Irã é um terreno fértil para a China estudar o armamento americano e israelita, o que pode informar a sua estratégia militar futura. A demonstração do valor militar dos drones na Ucrânia, por exemplo, foi fundamental na decisão da China de desenvolver e testar novos tipos de drones e tecnologias de enxame de drones.
O conflito no Irã pode causar danos económicos de curto prazo à China. Mas, com o tempo, podemos olhar para este momento como um ponto-chave na afirmação da influência da China em toda a Ásia e no mundo.
Tom Harper é docente de Relações Internacionais na Universidade de East London
Este artigo é republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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