Sempre que o mercado de previsões entra em controvérsia, giramos em torno de uma única pergunta central — mas raramente a encaramos de frente:
Os mercados de previsões realmente buscam a verdade?
Não se trata de precisão, utilidade ou de superarem pesquisas, jornalistas ou o sentimento das redes sociais. A questão fundamental é a própria verdade.
Mercados de previsões atribuem preços a eventos que ainda não ocorreram. Não reportam fatos; distribuem probabilidades para futuros que seguem abertos, incertos e desconhecidos. Em algum momento, passamos a tratar essas probabilidades como uma forma de verdade.
No último ano, os mercados de previsões desfrutaram de uma fase de glória.
Superaram pesquisas, canais de notícias e até especialistas com doutorado e PowerPoint. Durante a eleição dos EUA em 2024, plataformas como a Polymarket refletiram a realidade mais rápido do que quase todas as ferramentas tradicionais de previsão. Esse sucesso virou narrativa própria: mercados de previsões não são apenas precisos, mas superiores — uma forma mais pura de agregar a verdade, um sinal que reflete com mais autenticidade o que as pessoas acreditam.
Então, chegou janeiro.
Uma nova conta surgiu na Polymarket, apostando cerca de US$ 30.000 que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, seria deposto até o fim do mês. Na ocasião, o mercado atribuía a esse desfecho uma probabilidade muito baixa — apenas dígitos simples. Parecia uma aposta perdida.
Horas depois, forças dos EUA prenderam Maduro e o levaram a Nova York para responder a acusações criminais. A conta fechou a posição, lucrando mais de US$ 400.000.
O mercado acertou.
E é justamente aí que está o problema.
Defensores costumam contar uma história reconfortante sobre mercados de previsões:
Os mercados agregam informações dispersas. Pessoas com visões diferentes apostam dinheiro em suas convicções. Conforme as evidências aumentam, os preços se ajustam. O coletivo converge gradualmente para a verdade.
Essa narrativa parte de um pressuposto crucial: que a informação que chega ao mercado é pública, ruidosa e probabilística — como pesquisas apertadas, deslizes de candidatos, mudanças de rota de tempestades ou empresas que não batem metas.
Mas a operação envolvendo Maduro foi diferente. Não era inferência, era timing perfeito.
Naquele instante, mercados de previsões deixaram de parecer ferramentas sofisticadas de previsão e passaram a se assemelhar a outra coisa: um ambiente onde acesso pesa mais do que análise, e conexões valem mais do que interpretação.
Se a precisão do mercado vem de alguém com informações indisponíveis e inalcançáveis para os demais, o mercado não descobre a verdade — ele monetiza a assimetria de informação.
Essa diferença é muito mais relevante do que o setor costuma admitir.
Precisão pode ser sinal de alerta. Ao serem criticados, defensores dos mercados de previsões repetem o mesmo argumento: se insiders negociam, o mercado reage antes, beneficiando a todos. O uso de informação privilegiada acelera a revelação da verdade.
Essa teoria soa lógica, mas na prática, a lógica desmorona.
Se a precisão do mercado deriva de operações militares vazadas, inteligência confidencial ou cronogramas internos de governo, ele deixa de ser um mercado público de informações. Torna-se um ambiente paralelo para negociações secretas. Há uma diferença fundamental entre recompensar análise superior e recompensar proximidade ao poder. Mercados que borram essa linha invariavelmente atraem escrutínio regulatório — não por serem imprecisos, mas por serem precisos demais pelos motivos errados.

Voron23 @ 0xVoron Carteira insider confirmada na Polymarket.
“Eles lucraram mais de US$ 1 milhão em um único dia no evento Maduro.
Já vi esse padrão muitas vezes — insiders sempre vencem.
A Polymarket só torna tudo mais fácil, rápido e visível.
A carteira 0x31a5 transformou US$ 34.000 em US$ 410.000 em três horas.”

O que preocupa no caso Maduro não é só o tamanho do lucro — é o contexto em que esses mercados estão crescendo.
Mercados de previsões deixaram de ser curiosidades marginais para se tornarem um ecossistema financeiro próprio que Wall Street leva a sério. Segundo pesquisa da Bloomberg Markets, traders e instituições tradicionais agora enxergam mercados de previsões como produtos financeiros sólidos, ainda que reconheçam que essas plataformas confundem a linha entre aposta e investimento.
O volume de negociações disparou. Plataformas como Kalshi e Polymarket movimentam dezenas de bilhões de dólares em volume nocional anual — só a Kalshi processou quase US$ 24 bilhões em 2025. À medida que contratos políticos e esportivos atraem liquidez inédita, recordes diários continuam sendo quebrados.
Apesar do escrutínio, a atividade diária de negociação em mercados de previsões bateu recordes, chegando a cerca de US$ 700 milhões. Plataformas reguladas como Kalshi lideram em volume, enquanto as nativas de cripto seguem no centro cultural. Novos terminais, agregadores e ferramentas de análise surgem semanalmente.

Esse crescimento atraiu capital financeiro de peso. O dono da Bolsa de Nova York comprometeu até US$ 2 bilhões em acordos estratégicos com a Polymarket, avaliando a empresa em cerca de US$ 9 bilhões — sinal de que Wall Street acredita que esses mercados podem competir com as bolsas tradicionais.
Mas esse boom esbarra em zonas cinzentas regulatórias e éticas. Após a Polymarket ser banida por operações não registradas — e pagar multa de US$ 1,4 milhão à CFTC — só recentemente voltou a obter aprovação condicional nos EUA. Enquanto isso, parlamentares como Ritchie Torres apresentaram projetos de lei para proibir insiders do governo de negociar após o caso Maduro, alegando que o timing parecia oportunidade de negociação antecipada, não especulação informada.
Ainda assim, apesar das pressões legais, políticas e de reputação, a participação no mercado não caiu. Na verdade, mercados de previsões estão se expandindo de apostas esportivas para áreas como resultados corporativos, com casas de apostas tradicionais e fundos de hedge agora destacando especialistas para arbitrar e explorar ineficiências de preço.
Em resumo, essas tendências mostram que mercados de previsões não estão mais à margem. Estão aprofundando vínculos com a infraestrutura financeira, atraindo capital profissional, motivando novas legislações e, no essencial, seguem sendo uma forma de apostar em um futuro incerto.
Se o caso Maduro expôs o problema dos insiders, o mercado do terno de Zelensky revelou algo mais profundo.
No meio de 2025, a Polymarket abriu mercado sobre se o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky usaria terno antes de julho. O volume foi massivo — centenas de milhões de dólares. O que começou como piada virou crise de governança.
Zelensky apareceu com jaqueta preta e calça assinadas por estilista renomado. A mídia chamou de terno, especialistas em moda chamaram de terno. Era evidente o que era.
Mas o voto do oráculo decidiu: não era terno.
Por quê?
A resposta: alguns grandes detentores de tokens apostaram pesado no desfecho oposto e tinham poder de voto suficiente para aprovar uma decisão favorável. O custo de subornar o oráculo era menor do que o potencial prêmio.
Isso não foi falha de descentralização, mas de design de incentivos. O sistema funcionou exatamente como programado — a honestidade do oráculo humano depende totalmente do “custo da mentira”. Neste caso, mentir era simplesmente mais lucrativo.
É fácil ver esses eventos como exceções, dores de crescimento ou falhas temporárias no caminho para um sistema melhor. Mas isso seria um erro de leitura. Não são acidentes, são o resultado inevitável de três fatores: incentivos financeiros, regras ambíguas e mecanismos de governança imaturos.
Mercados de previsões não descobrem a verdade — apenas produzem um resultado de liquidação.
O que importa não é o que a maioria acredita, mas o que o sistema reconhece como resultado válido. Esse processo acontece na interseção de semântica, disputas de poder e jogos de capital. Quando grandes valores estão em jogo, esse cruzamento logo se enche de interesses conflitantes.
Uma vez entendido isso, disputas desse tipo deixam de surpreender.
A reação legislativa ao caso Maduro era previsível. Um projeto em tramitação no Congresso proibiria autoridades e funcionários federais de negociar em mercados de previsões políticas enquanto tiverem informações relevantes não públicas. Isso não é radical — é uma regra básica.
A bolsa de valores já entendeu isso há décadas. Servidores públicos não devem lucrar com acesso privilegiado ao poder do Estado — isso é padrão. Mercados de previsões só enfrentam isso agora porque insistiram em fingir ser outra coisa.
Complicamos demais a questão.
Mercados de previsões são apenas lugares para apostar em desfechos que ainda não ocorreram. Se o evento favorece você, há lucro; se não, há perda. Todo o resto é narrativa.
Interface simplificada ou apresentação de probabilidades não muda a essência. Rodar em blockchain ou gerar dados para economistas não o torna mais sério.
O que importa são os incentivos. Você é remunerado não pelo insight, mas por acertar o que vem a seguir.
Desnecessário é insistir em dar um verniz mais nobre. Chamar de previsão ou descoberta de informação não muda o risco, nem o motivo pelo qual você o assume.
Parece que relutamos em admitir: as pessoas só querem apostar no futuro.
Sim, querem. E está tudo certo.
Mas devemos parar de fingir que é diferente.
O crescimento dos mercados de previsões é impulsionado pelo desejo de apostar em “narrativas” — eleições, guerras, eventos culturais ou a própria realidade. Essa demanda é genuína e persistente.
Instituições usam para proteger contra incertezas, usuários de varejo para expressar convicção ou se entreter, e a mídia os trata como indicadores de tendência. Nada disso precisa de disfarce.
Na verdade, é o disfarce que gera atrito.
Quando plataformas se vendem como “máquinas da verdade” e reivindicam superioridade moral, toda controvérsia parece existencial. Quando mercados se resolvem de modo desconfortável, vira dilema filosófico, não o que realmente é — uma disputa sobre liquidação em produto de aposta de alto risco.
Expectativas desalinhadas nascem de narrativas desonestas.
Não sou contra mercados de previsões.
São uma das formas mais honestas de expressar crenças sob incerteza — muitas vezes revelando sinais incômodos antes das pesquisas. E vão continuar crescendo.
Mas elevá-los a algo mais nobre é autoengano. Não são motores epistemológicos; são instrumentos financeiros ligados a eventos futuros. Reconhecer essa diferença os torna mais saudáveis — com regulação clara, ética explícita e design melhor.
Quando você reconhece que opera um produto de apostas, não se surpreende com o comportamento de apostas dentro dele.





