No dia 14 de janeiro, o CLARITY Act — projeto de lei criado para definir padrões regulatórios para o mercado cripto dos EUA — será submetido a uma votação decisiva no Comitê Bancário do Senado. Na véspera desse possível marco, Brian Armstrong, fundador e CEO da Coinbase, anunciou a retirada total do apoio da empresa, afirmando que “um projeto ruim é pior do que nenhum projeto”.
O anúncio causou impacto imediato no setor. A maior surpresa, porém, foi que praticamente todos os outros grandes players adotaram a posição oposta à da Coinbase.
Chris Dixon, sócio da a16z, importante gestora de venture capital, declarou: “agora é hora de avançar”. Brad Garlinghouse, CEO da Ripple, afirmou: “clareza vence o caos”. Arjun Sethi, co-CEO da Kraken, classificou o momento como “um teste de vontade política”. Até o Coin Center, entidade sem fins lucrativos reconhecida por defender a descentralização, avaliou o projeto como “basicamente correto na proteção aos desenvolvedores”.
De um lado está a líder incontestável do setor; do outro, seus antigos aliados estratégicos. Não se trata de mais um embate regulatório entre cripto e Washington — é uma guerra civil interna.
Por que a Coinbase ficou isolada?
Simples: quase todos os demais grandes participantes, guiados por seus próprios interesses e estratégias de sobrevivência, enxergam neste projeto imperfeito a melhor alternativa disponível.
Primeiro, a16z. Como investidor mais proeminente do Vale do Silício em cripto, o portfólio da a16z cobre praticamente todos os segmentos do setor. Para eles, a maior ameaça não é a severidade de uma cláusula específica, mas a incerteza regulatória contínua.
Um marco legal claro, mesmo com falhas, cria ambiente fértil para o ecossistema crescer. A posição de Chris Dixon reflete o consenso dos investidores: a certeza regulatória é mais importante do que um projeto perfeito.
Depois, a Kraken. Concorrente direta da Coinbase, a Kraken se prepara para um IPO.
O aval regulatório do Congresso valorizaria fortemente suas ações no mercado. Já as restrições do projeto sobre rendimento de stablecoins têm impacto financeiro muito menor para a Kraken do que para a Coinbase. Para a Kraken, trocar prejuízos administráveis no curto prazo pelos benefícios de longo prazo de abrir capital é uma decisão simples.
Na sequência, a Ripple, referência em pagamentos. Brad Garlinghouse, CEO, resumiu sua posição em seis palavras: “clareza vence o caos”. O posicionamento reflete a longa e custosa disputa judicial da Ripple contra a SEC.
Para uma empresa exausta de batalhas regulatórias, qualquer forma de paz é um ganho. Um projeto imperfeito é melhor do que litígios intermináveis.
Por fim, o Coin Center, grupo de defesa. Como organização sem fins lucrativos, sua posição é a menos motivada por interesses comerciais. Sua principal demanda sempre foi garantir que desenvolvedores de software não sejam erroneamente classificados como “transmissores de dinheiro” e sobrecarregados por regulação excessiva.
O projeto incorpora integralmente o Blockchain Regulatory Certainty Act (BRCA), protegendo legalmente os desenvolvedores. Com seu objetivo principal atendido, o grupo aceita ceder em outros pontos. O apoio deles sinaliza o endosso dos “puristas” do setor.
Com gestoras de venture capital, exchanges, empresas de pagamentos e entidades de defesa alinhadas, a postura da Coinbase se destaca fortemente.
Surgem, então, as perguntas: se o setor inteiro enxerga um caminho, o que leva a Coinbase a correr o risco de dividir o mercado?
A resposta está nos números da Coinbase — um déficit de US$ 1,4 bilhão.
Para entender o movimento de Armstrong, é preciso compreender a preocupação existencial da Coinbase. Por anos, grande parte da receita da empresa veio das taxas de negociação de cripto.
A fragilidade desse modelo ficou clara durante o inverno cripto: lucros expressivos em mercados de alta, quedas acentuadas em mercados de baixa, até prejuízos trimestrais. A empresa precisa de fontes de receita mais estáveis.

O rendimento de stablecoins é o segundo motor de crescimento da Coinbase.
O modelo é simples: usuários mantêm USDC, stablecoin atrelada ao dólar, na Coinbase; a empresa empresta esses fundos via protocolos DeFi (como Morpho) para obter juros, repassando parte do rendimento aos usuários como recompensa. Segundo o site da Coinbase, usuários comuns podem receber rendimento anual de 3,5%, enquanto membros pagantes chegam a 4,5%.
O relatório financeiro do 3º trimestre de 2025 mostra que “receitas de juros e financiamento” atingiram US$ 355 milhões, quase totalmente provenientes de operações com stablecoins. Isso equivale a cerca de US$ 1,4 bilhão ao ano, representando fatia crescente da receita total. Em um mercado de baixa, com volume fraco de negociações, esse fluxo estável de caixa é o que mantém a Coinbase.
Uma nova cláusula do CLARITY Act mira diretamente a Coinbase. Ela proíbe emissores de stablecoins ou afiliados de pagar rendimento sobre “posições estáticas”, mas permite rendimento para “atividades e transações”.
Isso significa que os usuários não poderão mais receber juros apenas por manter USDC em contas na Coinbase. O impacto é severo: se aprovado, o projeto pode reduzir drasticamente — ou eliminar — esses US$ 1,4 bilhão.
Armstrong também destaca, em suas redes sociais, preocupações sobre a estrutura do mercado: o projeto pode bloquear tokens lastreados em ações/valores mobiliários, dificultar o DeFi, facilitar o acesso de reguladores aos dados financeiros dos usuários e enfraquecer o papel da CFTC no mercado à vista.
A proibição do rendimento de stablecoins é o golpe mais direto — e imediatamente prejudicial — à Coinbase.
Interesses diferentes levam a escolhas diferentes.
O negócio de stablecoins da Kraken é muito menor, então ela aceita perdas de curto prazo em troca do valor de abrir capital; a essência da Ripple é pagamentos, então a clareza regulatória é fundamental; o foco da a16z é o ecossistema como um todo, então ganhos ou perdas individuais não afetam a estratégia. A Coinbase vê um abismo, enquanto outros veem uma ponte.
Mas há um terceiro ator: o sistema bancário tradicional.
A American Bankers Association (ABA) e o Bank Policy Institute (BPI) argumentam que permitir rendimento em stablecoins fará trilhões de dólares migrarem dos bancos tradicionais, ameaçando milhares de bancos comunitários.
Em julho de 2025, o Stablecoin Genius Act foi aprovado, permitindo explicitamente que “terceiros e afiliados” pagassem rendimento sobre stablecoins, abrindo espaço legal para o modelo da Coinbase. Nos sete meses seguintes, porém, os bancos intensificaram o lobby, conseguindo incluir a proibição de “posições estáticas” no CLARITY Act.
Os bancos não temem um rendimento de 3,5% — temem perder o controle sobre a precificação dos depósitos. Quando o usuário pode escolher entre bancos e plataformas cripto, o monopólio dos bancos sobre juros baixos chega ao fim. Esse é o verdadeiro conflito.
Diante desses interesses, por que Armstrong é o único a tomar uma posição tão radical?
Mais do que um embate de interesses comerciais, trata-se do confronto entre duas filosofias de sobrevivência. Uma é o idealismo do Vale do Silício e a recusa em ceder; a outra, o pragmatismo de Washington e a reforma incremental.
Brian Armstrong representa a primeira. Não é sua primeira disputa pública com reguladores; em 2023, quando a SEC processou a Coinbase por operar uma bolsa de valores não registrada, Armstrong criticou abertamente a SEC por “posições inconsistentes” e revelou que a Coinbase realizou mais de 30 reuniões com reguladores, buscando regras claras sem sucesso.
Sua postura é constante: apoia regulação, mas rejeita firmemente a “má regulação”. Para ele, aceitar um projeto fundamentalmente falho é mais perigoso do que não ter projeto algum. Uma vez sancionada, a lei é quase impossível de mudar. Aceitar um projeto que destrói o modelo central do negócio em troca de certeza imediata seria como beber veneno.
A lógica de Armstrong: lutar a qualquer custo agora — por mais doloroso que seja — para preservar a chance de regras melhores no futuro. Ceder agora significaria abrir mão permanentemente do negócio de rendimento de stablecoins. Nessa batalha existencial, ceder é render-se.
Outros líderes cripto adotam uma filosofia pragmática. Entendem o jogo de Washington: legislação é arte do compromisso, e a perfeição é inimiga do progresso.
O CEO da Kraken, Sethi, acredita que o importante é estabelecer um marco legal para dar legitimidade ao setor, aprimorando-o gradualmente com lobby e participação. Primeiro sobreviver, depois prosperar.
Brad Garlinghouse, CEO da Ripple, prioriza a certeza. Anos de litígios mostraram que lutar na incerteza é desgastante. Uma paz imperfeita é melhor do que uma guerra perfeita.
Dixon, da a16z, adota uma visão estratégica global: se os EUA atrasarem a legislação por disputas internas, podem perder a liderança em inovação financeira para Singapura, Dubai ou Hong Kong.
Armstrong ainda enfrenta Washington com os métodos do Vale do Silício, enquanto outros já falam a língua de Washington.
Uma abordagem é “quebrar, mas não ceder” por princípios; a outra é “preservar as colinas verdes para lenha futura” pela sobrevivência prática. Qual é a mais sábia? Só o tempo dirá. Mas ambas têm custos elevados.
Qual é o verdadeiro custo dessa guerra civil iniciada pela Coinbase?
Primeiro, ela fragmentou politicamente o setor cripto.
Segundo o Politico, o presidente do Comitê Bancário do Senado, Tim Scott, adiou a votação apenas após a reviravolta de última hora da Coinbase e a incerteza sobre o apoio bipartidário. Embora a Coinbase não tenha sido o único fator, sua postura indiscutivelmente levou o processo ao caos.
Se o projeto não avançar, outras empresas podem culpar a Coinbase por priorizar seus interesses em detrimento do setor.
Mais grave ainda, esse conflito público enfraqueceu muito o poder de barganha do setor em Washington.
Quando parlamentares percebem que o setor não consegue apresentar uma frente unificada, ficam confusos e frustrados. Um setor dividido não faz frente ao lobby poderoso das finanças tradicionais.
Em segundo lugar, evidencia os dilemas da regulação na era digital.
O CLARITY Act tenta equilibrar inovação e prevenção de riscos, mas esse equilíbrio é praticamente impossível de agradar a todos. Para a Coinbase, o projeto é restritivo demais; para os bancos tradicionais, permissivo demais; para outras empresas cripto, talvez esteja na medida.
A regulação tenta impor limites às ambições insaciáveis. Cada nova regra é apenas o início da próxima negociação.
Mas o custo mais importante é que essa guerra civil abalou os alicerces do setor cripto.
Afinal, o que é a indústria cripto? Um experimento social de descentralização e liberdade individual ou um negócio de valorização de ativos e geração de riqueza? Uma revolução contra o sistema financeiro ou um complemento e reforma?
A postura inflexível de Armstrong e a disposição dos demais em ceder revelam o verdadeiro momento do setor: uma contradição constante entre ideais e realidade, revolução e comércio.





