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Acabei de ter um pensamento selvagem enquanto rolava a tela: o que realmente acontece com o Bitcoin se enfrentarmos uma queda de energia global que dure, digamos, uma década? Todos nós gostamos da narrativa de que o Bitcoin é imparável e descentralizado, mas há uma suposição bem pequena embutida nisso: que a eletricidade exista.
Michael Saylor, da MicroStrategy, tem uma visão interessante sobre isso. Ele basicamente diz que o Bitcoin simplesmente... dorme. Se todos os computadores do planeta desligarem por 10 anos, o protocolo fica inativo. Mas no momento em que alguém liga um único nó, tudo acorda de novo. Por quê? Porque o livro-razão — cada transação já feita — está armazenado em cerca de 25.000 nós espalhados pelo mundo neste momento. A perda de energia não apaga os registros, apenas torna a transmissão impossível. Assim que a energia volta, a rede se reconstrói.
Há algo quase poético nisso, comparado ao sistema bancário tradicional. Saylor aponta que o Bank of America poderia, teoricamente, ser apagado com um simples comando de teclado, mas o Bitcoin? É espalhado demais para ser destruído dessa forma.
Mas aqui é que fica interessante. Alguns analistas argumentam que o Bitcoin talvez nem sequer fique no escuro durante uma queda de energia global. Daniel Batten, que estuda a pegada ambiental do Bitcoin, defende que operações de mineração suficientes funcionam fora da rede — solar, eólica, captura de metano, micro-hidro — que a rede poderia simplesmente continuar operando. Um estudo de Cambridge de 2024 revelou que cerca de 8% da mineração de criptomoedas usa energia renovável fora da rede, e aproximadamente um quarto dos mineradores já utilizam essa energia. Então, teoricamente, mesmo em um cenário de apocalipse, haveria energia distribuída suficiente para manter a blockchain.
A questão? Esses sistemas off-grid precisam de manutenção. Peças se desgastam. Pessoas precisam consertar as coisas. Em um cenário de verdadeira catástrofe, onde a civilização está basicamente desmoronando, cadeias de suprimentos desaparecem, e estamos falando de uma possível perda de dezenas de milhões de pessoas — manter o Bitcoin funcionando vira uma preocupação secundária, no máximo.
Depois, há o problema da internet. O Bitcoin depende da internet, que por sua vez depende daqueles cabos de fibra óptica submarinos. Uma queda de energia global significa que esses cabos se degradam. A internet cai junto com a rede elétrica. Alguns argumentam que isso não importa — protocolos de código aberto podem, teoricamente, funcionar em qualquer computador conectado, mesmo por soluções de baixa tecnologia como rádio de longa distância ou kits de satélite. A Blockstream já vende receptores de satélite que permitem rodar nós do Bitcoin sem acesso à internet. Mas, realisticamente? Manter a sincronização global da rede fica exponencialmente mais difícil.
E aqui vem a parte brutal. James Woolsey, ex-diretor da CIA, já disse ao Congresso que uma falha de energia na rede elétrica que dure um ano poderia matar entre 66% e 90% da população dos EUA. Peter Todd, um desenvolvedor principal do Bitcoin, deixou bem claro: se estamos falando de uma queda de energia mundial de 10 anos, a sobrevivência do Bitcoin no nível de rede é quase irrelevante. A maioria dos Bitcoiners estará morta. A maioria das pessoas estará morta. Perderíamos 95% da população só por fome — a humanidade não consegue se alimentar sem eletricidade.
Então, sim, a rede provavelmente sobrevive. O livro-razão está intacto em algum lugar. Mas as pessoas que realmente possuem Bitcoin? O caso de uso? Essa é a verdadeira vítima. Em um cenário de colapso civilizacional, você trocaria sua última batata por uma moeda digital? Provavelmente não. Você trocaria por comida, calor, abrigo — coisas que realmente mantêm você vivo.
É uma conclusão sombria, mas vale pensar nesses extremos. A resiliência do Bitcoin é real, mas ela assume que humanos e sociedade permanecem por perto para usá-lo.