

Ela começou a programar bots de trading numa sexta-feira à noite, com café à mão e uma teoria sobre mercados laterais. Ao final da tarde de domingo, já tinha um bot de grid trading funcional a operar via API—sem nunca sair do apartamento. Era assim que ocupava a maioria dos fins de semana—não por lazer, mas para construir sistemas de trading automatizado.
Os amigos negociavam baseando-se em “pressentimentos” e “intuição”. Falavam em estar “bullish” ou “bearish”, como se fossem verdadeiros modelos de análise. Passavam horas a olhar para gráficos, convencidos de que a experiência e o instinto eram suficientes para antecipar o próximo movimento do mercado.
Mas ela era diferente. Não confiava em emoções nem em intuição no trading. Para ela, o mercado era um sistema complexo, mas regido por regras. Seguia padrões identificáveis. O mais importante: esses padrões podiam ser programados—transformados em algoritmos de trading.
Negociou cripto durante anos, mas há muito que deixara a negociação manual. Não por falta de competência—na verdade, era lucrativa de forma consistente—mas porque percebeu que manter disciplina emocional no trading era uma dificuldade gigantesca. O código não sente medo nem ganância.
Porque lutar contra a própria psicologia quando pode simplesmente remover o elemento humano do trading? Essa é a filosofia central da sua abordagem ao trading algorítmico.
Em tempos, julgava-se mais inteligente do que todos os traders do mercado. Isso foi num dia de maio, há alguns anos, quando o Bitcoin caiu de 43 000$ para 30 000$ em apenas quatro horas. Estava no escritório, numa reunião sobre migração de base de dados, quando o telemóvel começou a vibrar sem parar com erros dos bots de trading.
Desculpou-se, foi à casa de banho e abriu um terminal no telemóvel. O cenário era chocante: o bot de momentum estava a liquidar automaticamente toda a conta, em tempo real.
A lógica do bot era teoricamente robusta: comprar em breakouts, vender em breakdowns, com um trailing stop para segurar os lucros. Nos primeiros dois meses, o bot trabalhou sem falhas, rendendo até +40%. Chegou até a vangloriar-se do seu “sistema perfeito” junto dos colegas.
Mas, quando a volatilidade disparou e os preços oscilaram de forma violenta, o bot comprou várias falsas fugas, só para ver o preço inverter de imediato. Comprava a 38 mil, stop a 36 mil. Voltava a comprar a 39 mil, stop a 37 mil. Este ciclo repetiu-se sete vezes numa hora.
Quando desligou o bot manualmente, a conta estava com uma perda de 35%. Sentou-se no carro, ao final do dia, a olhar em silêncio para o painel. O bot não falhou tecnicamente. Executou exatamente como estava programado. O verdadeiro problema foi a lógica inadequada para condições extremas de mercado.
No Twitter, percebeu que os bots da maioria dos traders tiveram o mesmo destino. “O meu algoritmo ficou rekt.” “Afinal, a minha estratégia só funciona em bull market.” Ao menos não estava sozinha na “estupidez”.
Noutras exchanges, a situação era ainda pior. As ordens sofriam atrasos graves, as APIs falhavam por timeout e algumas exchanges liquidavam clientes a preços que não existiam em mais lado nenhum porque os sistemas não suportavam a carga.
Na sua exchange, porém, todas as ordens foram executadas. Os stop loss ativaram-se exatamente como previsto. A perda de 35% ficou-se a dever unicamente ao seu código—não a qualquer falha técnica da plataforma.
Foi um consolo magro, depois de perder 35% da conta porque um código “inteligente” se mostrou ingénuo perante a brutalidade do mercado.
Em maio do ano seguinte, viu em direto no Twitter o colapso da Luna—uma criptomoeda outrora celebrada como das mais “inteligentes”.
A Luna era uma stablecoin algorítmica, desenhada por doutorados, com teoria dos jogos avançada, mecanismos de arbitragem sofisticados e uma solução matemática “perfeita” para evitar uma espiral de morte. Em teoria, estava tudo pensado ao pormenor.
A realidade foi outra. A matemática podia falhar, as premissas iniciais eram frágeis—ou ambas. 40 mil milhões desapareceram em 48 horas porque o algoritmo que devia evitar o desastre apenas acelerou o colapso.
Um amigo engenheiro, confiante nas suas competências analíticas, perdeu 80 000$ no evento UST. Atónito, perguntou: “O mecanismo parecia tão sólido. Como falhou tão mal?”
A resposta era simples: não se pode programar um sistema para resistir ao pânico coletivo. São os casos-limite impensáveis que destroem o sistema.
Ao construir o seu próprio sistema de trading, viu sistemas de outros colapsarem, uns atrás dos outros. A Celsius bloqueou levantamentos. A Three Arrows Capital revelou-se uma aposta gigante e sobrealavancada. BlockFi, Voyager e outros credores “algorítmicos” caíram todos por má gestão de risco.
Depois, em novembro, a FTX colapsou—uma exchange gerida por “quant traders” conhecidos pela gestão de risco. Mas o seu “algoritmo de gestão de fundos de clientes” era afinal um esquema, mascarado de jargão técnico.
Depois destas lições dolorosas, ela adicionou mais circuit breakers aos bots: regras simples, como “se algo fora do comum acontecer, parar todo o trading”. Isso reduziu os lucros, mas ao menos o sistema sobreviveu.
O Bitcoin estava a variar entre 98 000$ e 103 000$ há duas semanas—a situação ideal para um grid trading bot.
O conceito de grid trading é simples: colocar ordens de compra abaixo do preço atual e ordens de venda acima do mercado. À medida que o preço oscila no intervalo, o bot lucra com o spread. Mas a implementação real é muito mais exigente.
Numa sexta-feira à noite, iniciou a programação da lógica das ordens. Passadas algumas horas, percebeu que a regra de reequilíbrio era má e precisava de ser refeita. Depois esteve uma hora a depurar porque o websocket caía, até perceber que se esquecera de enviar a mensagem heartbeat.
Há sempre um bug básico escondido no código. É a lei imutável da programação.
Pelas 2h, encomendou pad thai e continuou a programar. Sábado de manhã, passou para paper trading para testar. Primeiro erro: o bot colocava ordens fora do intervalo definido. Resolvido. Segundo: dimensionamento errado da posição. Resolvido. Terceiro: uma gralha no nome de uma variável que demorou 45 minutos a encontrar.
No total, identificou e corrigiu 11 bugs. Após duas horas de paper trading sem erros, achou que estava pronta para trading real.
Mas assim que iniciou o trading real, o bot crashou—esquecera-se de validar o tamanho mínimo da ordem da exchange. Corrigiu, reiniciou e monitorizou durante mais uma hora. Desta vez, tudo funcionou sem falhas.
Fechou o portátil e foi dar uma caminhada. Se o bot falhasse, paciência—tinha feito tudo o que podia.
Ao construir bots de trading, testou inúmeras exchanges. Quase sempre, era um desastre técnico.
Os limites de taxa ativavam-se ao acaso. Os endpoints REST API bloqueavam por timeout nos picos de volatilidade—precisamente quando eram mais necessários. Os feeds de websocket podiam parar sem aviso. A documentação da API era confusa e pouco clara.
Obter dados de margem fiáveis via API? Metade das exchanges nem os publicava. Era preciso confiar cegamente nos motores de liquidação.
Perdeu a conta aos bots que falharam—não por erros no código, mas porque as APIs das exchanges eram pouco fiáveis.
Na plataforma atual, a API funcionava. A documentação batia certo com os endpoints. Os limites de taxa eram razoáveis. As mensagens de erro eram claras e específicas, não apenas “bad request”.
O mais importante: com Unified Margin, não precisava de transferir colateral entre posições. O saldo total da conta garantia todas as ordens. Em grid trading, isso permitiu-lhe operar 18 níveis em vez de apenas 8, com o mesmo capital.
Definiu 18 níveis de grid de 98 400$ a 102 600$. Cada ordem: 0,03 BTC. Stop loss abaixo de 96 000$. Take profit em todas as ordens acima de 105 000$.
Sábado à tarde, depois de corrigir três gralhas e uma grave condição de corrida, o bot ficou online. Monitorizou durante uma hora—tudo correu como nos testes.
Depois parou de monitorizar. Ficar a olhar para logs não melhora o código. Agora o bot tinha de mostrar resultados.
Domingo de manhã, acordou e pegou no telemóvel.
14 trades executados durante a noite: 8 compras em quedas, 6 vendas em subidas. P&L líquido: +410$.
Não é um valor transformador, mas confirma que o sistema funcionou enquanto dormia. Nada de acordar às 3h para trading manual. Nenhuma oportunidade perdida ao pequeno-almoço ou no duche. O bot simplesmente funcionou e gerou lucro.
Ao final do dia, 34 trades executados. Lucro total: +920$. Não foi um moonshot—apenas execução algorítmica disciplinada e consistente.
Verificou os logs duas vezes à procura de bugs. Nada. Tudo limpo, a funcionar como previsto.
A satisfação de ver o código a cumprir o plano foi maior do que o dinheiro ganho.
No final do domingo, percorreu o Twitter. Alguém publicou um ganho de 40x numa memecoin. Os comentários estavam cheios de foguetes e “acabei de comprar mais”.
O seu bot rendeu 920$ no fim de semana. Esse trader carregou “comprar” uma vez e fez 120 000$.
O ciclo repete-se: traders manuais sem sistema, sem gestão de risco, sem código—só sorte—fazem 100x. Ela investe em retornos constantes com infraestrutura técnica complexa.
Vale a pena todo este esforço se outros conseguem 100x só por carregar em “comprar”?
O ex-namorado dizia: “Passas o fim de semana a programar para fazer 900$? Porque não compras só Bitcoin?”
Sim. Ou compras Bitcoin e perdes 60% numa inversão. Ou entras all-in num shitcoin e perdes tudo. Ou vendes em pânico no fundo—porque trading emocional é receita para desastre.
O sistema não a torna mais inteligente que os outros. Apenas remove a emoção—o que destrói decisões de trading.
Ainda assim, quando vê outros a ganhar seis dígitos em memecoins enquanto depura websockets às 2h, questiona-se se estará no caminho certo.
Foram precisos anos para construir este sistema de trading. A principal lição: a estratégia é simples; a execução é tudo.
Por melhor que seja a lógica, se a exchange falhar durante a volatilidade, não vale nada. Um bot de arbitragem sofisticado é inútil se a API for limitada quando os spreads sobem. O grid strategy falha sem dados de margem fiáveis.
Agora gere seis bots nesta plataforma: grid, DCA, arbitragem de funding rate, entre outros. Nem todos ganham, mas executam exatamente como foram programados porque a base técnica é sólida.
O uptime da API é quase perfeito. As ordens são sempre executadas ao mercado. Os feeds de dados nunca caem. A informação de margem é precisa. Em anos de operação, nunca encontrou um bug causado pela API.
Depois de ver o algoritmo da Luna cair, os controlos de risco das grandes exchanges desmascarados como fraude e os próprios bots falharem em infraestruturas fracas, percebeu: código engenhoso não vale nada sem uma base robusta.
Em suma: nada importa se a exchange cair.
Durante o dia, é developer fintech. À noite e aos fins de semana, programa bots de trading. Pelos vistos, programar durante o dia não chega.
O portefólio não é tão grande como o dos amigos adeptos de memecoins, mas cresce de forma constante. Eles ganham e perdem grandes valores. A conta dela cresce devagar, mas de forma estável. Umas semanas em alta, outras ligeiramente em baixa. Mas o bot continua sempre a correr.
De vez em quando, pedem-lhe conselhos sobre trading. Costuma responder: “Não tentes prever o mercado. Cria um sistema que resista a qualquer cenário.”
A maioria não quer ouvir isso. Querem dicas quentes e previsões—não tutoriais de Python nem lições de arquitetura.
É precisamente por isso que tem menos concorrência.
Há algo especial em acordar e ver que o código correu perfeitamente toda a noite. Não é emoção—é apenas a satisfação de tudo ter funcionado como planeado.
Lógica sólida. Código limpo. Infraestrutura fiável.
O grid bot continua a funcionar. O Bitcoin oscila entre 98 000$ e 103 000$. Enquanto o preço se mantiver nesse intervalo, o bot continua a gerar lucro. Se o preço sair do intervalo, o bot fecha todas as posições e espera pela próxima oportunidade.
Não precisa de passar o dia a olhar para gráficos. Já começou o próximo projeto—algo relacionado com gaps de liquidez e arbitragem de funding rate. Os primeiros backtests são promissores. Talvez teste em trading real no próximo fim de semana.
Só espera não voltar a passar quatro horas a corrigir um erro de digitação. Mas é inevitável. É a lei inquebrável da programação.
O The Architect foi executivo na FTX, fundou a fintech Architect e angariou 35 milhões de dólares em financiamento. Iniciou a carreira na Jane Street, liderando tecnologia de trading systems e criando infraestruturas de trading de alta performance.
Momentum (seguimento de tendências), arbitragem (exploração de diferenças de preços), market making (provisão de liquidez) e machine learning (modelos preditivos baseados em IA) para otimizar retornos.
O livro relata uma jornada de seis anos no trading algorítmico, com foco em estratégia, gestão de risco e psicologia de mercado. Ajuda os leitores a perceber como construir sistemas de trading de cripto eficazes.
O trading algorítmico executa automaticamente com base em dados e lógica, eliminando emoção e erro humano. O trading manual confia na intuição e está sujeito a emoções. Os algoritmos oferecem maior velocidade, precisão e consistência.
Através de ordens stop-loss, diversificação de portefólio e manutenção de um rácio equilibrado risco/retorno para proteger capital e maximizar ganhos.
Dominar os princípios do mercado e programação, escolher uma área, familiarizar-se com ferramentas de análise de dados e desenvolver estratégias simples antes de aumentar a complexidade.
Este caso inclui ferramentas como Gate.com e plataformas como TradingView e Messari. São essenciais as plataformas de análise de mercado e de gestão de portefólio que suportam trading algorítmico.











