

O ano de 2025 ficou marcado por uma divergência sem precedentes entre dois ativos tradicionalmente vistos como coberturas complementares face à incerteza económica. O ouro disparou acima dos 4 400 $ por onça em dezembro, fixando novos máximos históricos e proporcionando retornos superiores a 55% durante o ano. Este movimento excecional nos metais preciosos reflete mudanças profundas na política monetária global e na perceção do risco geopolítico. Por sua vez, o Bitcoin seguiu um percurso radicalmente diferente, negociando 29,5% abaixo do seu pico de outubro, próximo dos 126 200 $, sem acompanhar a valorização do ouro. Esta diferença desafia a crença generalizada de que o preço do ouro atinge máxima correlação histórica com os movimentos do bitcoin permaneceria alinhado. A criptomoeda afundou-se para valores abaixo dos 90 000 $ no final de novembro, revertendo acentuadamente o otimismo que antes envolvia os ativos digitais.
A divergência torna-se ainda mais evidente ao analisar os padrões de procura trimestrais. No terceiro trimestre de 2025, a procura conjunta de ouro por investidores e bancos centrais atingiu cerca de 980 toneladas, registando um aumento superior a 50% face à média dos quatro trimestres anteriores. Bancos centrais da China, Índia e diversas outras economias adquiriram mais de 1 000 toneladas de ouro por ano nos últimos anos. Esta acumulação institucional contrasta fortemente com a dificuldade do Bitcoin em captar uma convicção institucional semelhante. Segundo a J.P. Morgan Global Research, estima-se que a procura de ouro por bancos centrais ronde em média as 585 toneladas por trimestre, com tendências estruturais a apontar para compras elevadas e sustentadas. Estes dados sólidos demonstram porque cada vez mais investidores institucionais consideram o ouro físico uma reserva de valor superior em cenários de incerteza económica e instabilidade cambial.
| Ativo | Desempenho em 2025 | Posição de Fim de Ano | Procura Institucional |
|---|---|---|---|
| Ouro | +55% | Máximo Histórico | 980 toneladas T3 2025 |
| Bitcoin | -30% | 29,5% Abaixo do Pico | Participação Seletiva |
| S&P 500 | Resiliente | Níveis Recorde | Entradas Relevantes |
A narrativa do Bitcoin enquanto “ouro digital” foi posta à prova em 2025, com ambos os ativos a reagirem de forma fundamentalmente distinta aos desafios macroeconómicos. Durante anos, os defensores das criptomoedas promoveram o Bitcoin como equivalente moderno dos metais preciosos, sublinhando características comuns como a oferta limitada e independência face ao poder estatal. Porém, o comportamento deste ano revela o erro de tais paralelos. A queda de 30% do Bitcoin desde os máximos de outubro coincidiu com a impressionante valorização do ouro, provando que porque ouro e bitcoin evoluem em conjunto é uma simplificação excessiva de dinâmicas de mercado complexas, marcadas por preferências e tolerâncias ao risco distintas dos investidores.
A chegada de instrumentos financeiros avançados democratizou o acesso a ambas as classes de ativos, tornando ainda mais visíveis as suas diferenças comportamentais. Os futuros de Bitcoin do CME Group disponibilizam contratos de apenas 1/50 de uma unidade, permitindo uma participação alargada dos investidores de retalho, antes limitada pelas barreiras à entrada do setor. Já o ouro beneficia de uma infraestrutura consolidada que inclui ETF, futuros, barras e moedas, com práticas de custódia testadas ao longo de séculos. Este paradoxo de acessibilidade demonstra que facilidade de negociação não significa, necessariamente, convicção dos investidores. Muitos desks institucionais agrupam ativos voláteis como o Nasdaq e o Bitcoin na mesma carteira, partindo do princípio que a gestão de volatilidade é transferível entre categorias. A força do ouro, por oposição, nasce de uma alocação de capital orientada para preservação, e não para a especulação.
A relação Bitcoin/ouro revela tendências cruciais de posicionamento em ativos de risco. Este indicador manteve-se praticamente inalterado face a 2020 ao longo de 2025, apesar da resiliência dos mercados acionistas, sinalizando um possível esgotamento nas avaliações de ativos especulativos. Analistas classificam este fenómeno como um “fim de ciclo” para expetativas elevadas em ativos de risco, com o capital a migrar para refúgios, em vez de ativos digitais orientados para crescimento. A dicotomia metais preciosos vs investimento em criptomoedas acentua-se ao observar a atuação dos bancos centrais, que manifestam preferência clara por ativos físicos em detrimento de soluções baseadas em blockchain. Esta escolha institucional baseia-se em décadas de protocolos sólidos, clareza regulatória e eficácia comprovada em períodos de crise—características que os mercados de criptomoedas ainda não conseguiram replicar à mesma escala.
A estratégia de acumulação de ouro por parte dos bancos centrais constitui o sinal macroeconómico mais relevante do ano sobre a hierarquia de preferências de ativos. Nos últimos três anos, os bancos centrais globais mantiveram compras anuais superiores a 1 000 toneladas, contrariando claramente os modelos clássicos de negociação em cenários de inflação ou deflação. Este comportamento resulta diretamente do agravamento das tensões geopolíticas, da instabilidade cambial e da necessidade de cobertura contra potenciais sanções sobre reservas em dólares. China, Índia e um grupo alargado de bancos centrais de mercados emergentes mantiveram estas aquisições mesmo com o ouro em máximos, demonstrando convicção para lá do condicionamento pelo preço.
O contexto de políticas que sustenta a procura de ouro pelos bancos centrais tem impacto direto na análise da correlação ouro bitcoin. Os bancos centrais utilizam o ouro para reforçar a soberania perante pressões económicas externas e iniciativas de desdolarização, mantendo-se distantes de estratégias de acumulação de Bitcoin. Esta separação resulta da avaliação institucional sobre maturidade dos ativos, clareza regulatória e eficácia comprovada em situações de stress sistémico. O ouro manteve-se, ao longo de séculos de crises económicas, guerras e colapsos cambiais, como ativo-refúgio. O Bitcoin, em contrapartida, não dispõe de um historial comparável e opera em ambientes regulatórios em mutação, gerando incerteza. Apesar do avanço tecnológico dos mercados de criptomoedas em doze anos, tal não satisfaz ainda os critérios dos bancos centrais, que requerem ativos com provas multigeracionais.
Segundo a J.P. Morgan, mesmo com preços do ouro significativamente mais elevados em 2025, a procura dos bancos centrais manteve-se forte e constante. Gregory Shearer, diretor de Estratégia de Metais Base e Preciosos da J.P. Morgan, destaca que os compradores institucionais continuam a adquirir ouro a preços elevados, contrariando a ideia de destruição da procura motivada pelo preço. Este comportamento contrasta com a evolução pouco robusta do preço do Bitcoin no mesmo período. O significado é claro: os bancos centrais priorizam o seguro geopolítico e a diversificação de reservas, não a maximização do preço, distinguindo-se dos investidores de retalho focados na valorização do capital. Para os investidores em Bitcoin, a preferência dos bancos centrais pelo ouro físico mostra que os ativos digitais ainda não obtiveram nem endosso institucional nem reconhecimento como ativo de crise que justifique alocações de reservas equivalentes.
A capitalização de mercado conjunta de ouro e Bitcoin, apesar de trajetórias de desempenho opostas em 2025, representa um valor agregado expressivo que merece atenção dos gestores de carteiras de ativos alternativos. O ouro, com 17 biliões de dólares, eclipsa a valorização do Bitcoin, de cerca de 2 a 3 biliões de dólares, mas os defensores das criptomoedas apontam potenciais catalisadores de realocação de capital capazes de alterar radicalmente este panorama. Segundo a Bitwise, uma realocação de apenas 2% do vasto mercado do ouro poderia elevar o Bitcoin acima dos 160 000 $, ilustrando o efeito de alavancagem dos fluxos de capital entre diferentes classes de ativos. Este cenário demonstra como alterações marginais nas alocações institucionais podem gerar impactos desproporcionados na valorização das criptomoedas.
No entanto, estes cenários pressupõem que o impacto do máximo histórico do ouro em 2024 no bitcoin depende de uma recuperação da confiança dos investidores nas criptomoedas enquanto ativos-refúgio institucionais. Presentemente, o mercado demonstra padrões de rotação do capital dos ativos de risco para instrumentos de preservação de valor. Nos últimos meses de 2025, o ouro superou o Bitcoin em cerca de 30% em janelas de medição específicas, consolidando os metais físicos como principal alocação defensiva do ano. Esta tendência reflete um contexto macroeconómico de liquidez mais restrita e incerteza regulatória, que prejudica os ativos especulativos. Os gestores de carteiras de ativos alternativos enfrentam a realidade de que os máximos históricos em ativos alternativos não acontecem de forma sincronizada entre categorias, sendo a divergência entre ouro e Bitcoin uma lição importante sobre pressupostos de correlação nos modelos de diversificação.
A combinação entre escassez criptográfica e utilidade física é o alicerce para compreender a convergência dos ativos reais à escala global. O Bitcoin apresenta elevado potencial de crescimento pelo aumento da adoção tecnológica e aceitação institucional, ao passo que o ouro assegura estabilidade, sustentada pela sua resiliência em crises e capacidade de proteção macroeconómica. Ambos respondem a objetivos distintos de carteira, funcionando mais como complementos do que como substitutos. Plataformas como a Gate permitem construir exposições equilibradas a múltiplas categorias de ativos reais, reconhecendo que nem o ouro nem o Bitcoin detêm o monopólio da proteção defensiva nas carteiras contemporâneas. O valor combinado de 30 biliões de dólares reflete a incerteza económica que direciona o capital para ativos descorrelacionados de moedas fiduciárias, políticas governamentais e dos mercados acionistas. Os gestores que adotam estratégias sofisticadas reconhecem cada vez mais que, ao combinar a estabilidade do ouro com o potencial assimétrico do Bitcoin, reforçam os objetivos de gestão de risco—criando verdadeira complementaridade em carteira, apesar da divergência de desempenho registada em 2025.











