
Numa decisão polémica que reacendeu o escrutínio sobre o comportamento da família real, o príncipe André organizou uma visita privada ao Palácio de Buckingham para empresários do setor das criptomoedas ligados a um negócio falhado de 1,4 milhões de libras envolvendo a sua ex-mulher, Sarah Ferguson. A Duquesa de York recebeu mais de 200 000 libras pelo seu papel de embaixadora da marca da Pegasus Group Holdings, uma empresa do Arizona que prometia revolucionar a mineração de Bitcoin através de operações alimentadas por energia solar no deserto. Contudo, este projeto ambicioso colapsou no espaço de um ano, deixando inúmeros investidores a sofrer perdas financeiras substanciais. Estas revelações surgem num momento especialmente delicado, já que o Palácio de Buckingham iniciou recentemente processos formais para retirar ao príncipe André os seus últimos títulos e privilégios reais, incluindo a residência em Windsor. O incidente levanta questões essenciais sobre os limites entre o estatuto real e as atividades comerciais privadas, sobretudo quando envolvem setores emergentes e voláteis como as criptomoedas.
A polémica visita ao palácio ocorreu em junho de 2019, numa altura em que a rainha Isabel II residia no Palácio de Buckingham, o que acrescenta preocupação quanto à adequação do evento. Os empresários envolvidos, Jay Bloom e Michael Evers, cofundadores da Pegasus Group Holdings, tiveram acesso excecional a uma das mais emblemáticas residências reais britânicas. Foram conduzidos pelos portões do palácio no veículo pessoal do duque de York, um privilégio normalmente reservado a convidados oficiais e dignitários, antes de participarem no evento Pitch@Palace de André nesse mesmo dia. Esta iniciativa, criada pelo príncipe André, tinha como objetivo apoiar empreendedores e startups, mas a ligação ao negócio da Pegasus levantou dúvidas sobre potenciais conflitos de interesse.
Sarah Ferguson, que manteve uma relação próxima com o príncipe André apesar do divórcio, desempenhou um papel central no projeto Pegasus como embaixadora oficial da marca. Na noite da visita ao palácio, juntou-se a Bloom e Evers num jantar reservado que contou com o príncipe André e a sua filha, a princesa Beatriz, esbatendo ainda mais as fronteiras entre encontros familiares da realeza e oportunidades de networking empresarial. A presença da princesa Beatriz nesse jantar também foi alvo de críticas, ao sugerir o envolvimento de vários membros da família real numa relação comercial privada.
A Pegasus Group Holdings apresentou-se como uma empresa inovadora no setor da mineração de criptomoedas, alegando estar a desenvolver uma operação de mineração de Bitcoin em grande escala alimentada exclusivamente por energia solar no deserto do Arizona. A apresentação da empresa enfatizava a sustentabilidade ambiental e o potencial para retornos significativos, atraindo investidores com promessas de tecnologia avançada e integração de energias renováveis.
No entanto, a realidade ficou muito aquém das promessas. Em apenas um ano de atividade, o projeto colapsou, deixando os investidores com perdas de milhões de libras e perante a dura realidade de que os seus investimentos tinham praticamente desaparecido.
Processos judiciais posteriores revelaram a extensão do fracasso do projeto. Dos 16 000 geradores solares prometidos pela Pegasus, apenas 615 foram realmente adquiridos e instalados. Esta enorme insuficiência de infraestrutura resultou numa produção de apenas 25 000 libras em Bitcoin durante todo o período de operação, um valor que representa uma ínfima parte dos retornos prometidos aos investidores. A discrepância entre as projeções ambiciosas da empresa e os resultados concretos tornou-se central nos litígios subsequentes.
Investidores norte-americanos, sentindo-se enganados e prejudicados financeiramente pelo projeto falhado, avançaram com ações judiciais contra a Pegasus Group Holdings. Estes esforços culminaram numa decisão arbitral de 4,1 milhões de dólares, atribuída após demonstrarem que a empresa utilizou indevidamente fundos dos investidores e não cumpriu as suas promessas essenciais. O painel arbitral encontrou provas que sustentam que a Pegasus não alocou corretamente os recursos para construir a infraestrutura de mineração prometida. Jay Bloom, um dos cofundadores, está atualmente a recorrer da sentença, alegando que as dificuldades da empresa foram provocadas por desafios técnicos e de mercado inesperados e não por má gestão ou uso indevido de fundos.
Documentos obtidos através da investigação da BBC revelaram acordos financeiros substanciais entre Sarah Ferguson e a Pegasus Group Holdings. Ferguson recebeu mais de 200 000 libras em pagamentos pelo seu trabalho como embaixadora da marca, função que implicava essencialmente emprestar o seu estatuto ligado à realeza e perfil público para promover a imagem da empresa e atrair investidores. O contrato previa ainda um bónus adicional de desempenho de 1,2 milhões de libras e ações na empresa, evidenciando o potencial lucrativo do acordo caso o projeto tivesse tido êxito. O contrato estipulava também viagens em primeira classe, alojamento em hotéis de cinco estrelas e acesso a serviços profissionais de styling para aparições públicas relacionadas com as suas funções de embaixadora.
De forma crucial, o acordo entre Ferguson e a Pegasus incluía uma cláusula que a isentava de qualquer responsabilidade na verificação ou validação das afirmações técnicas da empresa sobre as suas capacidades de mineração de Bitcoin ou a viabilidade do modelo de negócio. Esta proteção jurídica parece ter sido desenhada para a resguardar de eventuais responsabilidades caso as promessas da empresa se revelassem infundadas, o que veio a verificar-se. No entanto, os críticos argumentam que este acordo permitiu a Ferguson beneficiar da sua ligação ao projeto enquanto evitava responsabilidade pelos seus fracassos, levantando questões éticas sobre as obrigações dos embaixadores de marca de elevado perfil, especialmente aqueles ligados à família real.
Estas revelações reacenderam preocupações antigas sobre as relações financeiras do príncipe André e de Sarah Ferguson, bem como sobre a problemática interseção entre o estatuto real e os negócios privados. O casal tem sido alvo de escrutínio ao longo dos anos devido a múltiplas relações empresariais e acordos financeiros que, segundo críticos, exploram indevidamente as ligações à realeza para proveito pessoal. O caso Pegasus é talvez o exemplo mais flagrante deste padrão, envolvendo até a utilização do Palácio de Buckingham como local para fomentar relações comerciais ligadas a um projeto que acabou por fracassar e prejudicar investidores.
O momento destas revelações foi especialmente prejudicial para o príncipe André, já que o Palácio de Buckingham confirmou recentemente que estão em curso processos formais para lhe retirar os títulos remanescentes e a residência em Windsor. Esta ação ocorre em meio ao escrutínio contínuo das suas ligações passadas, nomeadamente à relação com o condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein, que afetou gravemente a sua reputação e levou ao afastamento das funções reais públicas. O escândalo Pegasus relacionado com criptomoedas vem acrescentar uma nova dimensão às preocupações sobre o discernimento de André e a utilização dos privilégios reais para fins considerados inadequados por muitos.
Jay Bloom, cofundador da Pegasus, abordou publicamente alguns aspetos da visita ao palácio, negando que ele ou o seu parceiro tenham tido qualquer encontro com a falecida rainha Isabel II durante a estadia em Buckingham Palace. Contudo, admitiu que agradeceu ao príncipe André e a Sarah Ferguson pela organização da visita exclusiva à residência histórica. Esta admissão confirma que a visita foi organizada pelo casal real como parte da sua relação com os executivos da Pegasus, reforçando as preocupações sobre a mistura imprópria entre acesso à realeza e interesses comerciais privados. O incidente mantém vivo o debate sobre a necessidade de diretrizes mais claras e de aplicação rigorosa das regras que regulam as atividades comerciais dos membros da família real e a utilização de propriedades e privilégios reais.
Esta transação envolveu o príncipe André e o empresário chinês Yang Tengbo num acordo de 1,4 milhões de libras, levantando preocupações sobre possível influência política e interferência na política britânica. Os detalhes da participação concreta em criptomoedas mantêm-se limitados e sob investigação.
A participação da realeza em atividades cripto suscita preocupações de conformidade com as leis britânicas de sanções financeiras. As empresas do setor têm reportado insuficientemente as violações desde 2022. Este envolvimento exige rigoroso cumprimento dos regulamentos aplicáveis e pode resultar em escrutínio pelas autoridades.
Esta transação prejudicou gravemente a reputação do príncipe André e lançou uma sombra negativa sobre a imagem da família real. A confiança pública nas operações financeiras da monarquia foi questionada, levantando preocupações sobre responsabilidade institucional e padrões de governança interna.
O Palácio de Buckingham acolhe atividades relacionadas com criptomoedas para demonstrar apoio a tecnologias emergentes e incentivar a inovação. Estes eventos atraem talento internacional e promovem a troca e o desenvolvimento tecnológico.
Este evento reflete uma crescente abertura das instituições tradicionais de poder perante o setor cripto. O envolvimento ao mais alto nível sinaliza aceitação generalizada e reconhecimento da relevância económica das criptomoedas em meios institucionais.











