
A Coreia do Sul enfrenta novamente preocupações quanto a um novo adiamento da implementação do imposto sobre criptoativos. Já passaram cinco anos desde a proposta inicial e, apesar de três adiamentos anteriores, as autoridades continuam sem dispor da infraestrutura necessária para uma tributação eficaz — incluindo sistemas de monitorização de transações, critérios para classificação de rendimentos e mecanismos de controlo transfronteiriço.
Kim Gap-rye, investigador sénior no Korea Capital Market Institute, advertiu nos meios de comunicação locais que permanecem falhas fundamentais no quadro fiscal. Segundo o próprio, “se o governo nada fizer durante o período de transição e ocorrer um quarto adiamento, a confiança no sistema fiscal colapsará”, salientando que, nas condições atuais, não se pode descartar mais um adiamento.
Esta situação evidencia o alargamento do fosso entre o crescimento acelerado do mercado de criptoativos na Coreia do Sul e o lento desenvolvimento regulatório. Investidores e participantes do setor continuam a exigir regras fiscais claras, questionando a capacidade do executivo em dar resposta eficaz.
A atual legislação sobre o imposto de rendimento prevê uma taxa de 22% sobre lucros anuais superiores a 2,5 milhões de KRW provenientes da transferência ou cedência de criptoativos. No entanto, as definições e critérios relativos a diferentes fontes de rendimento — incluindo airdrops, hard forks, mining, staking e rendimentos de aluguer — continuam pouco claros.
Onze meses após o último adiamento, as autoridades ainda não criaram um grupo de trabalho conjunto público-privado, nem a tributação de criptoativos integra a agenda da administração fiscal nacional. Isto demonstra inequivocamente a falta de preparação governamental.
Kim salientou também a inexistência de critérios de tributação para operações fora das bolsas nacionais — incluindo plataformas estrangeiras, serviços descentralizados e transferências peer-to-peer (P2P). As normas relativas à tributação de não residentes, ao apuramento de custos de aquisição e à determinação do momento da tributação também permanecem indefinidas.
O regime fiscal relativo a rendimentos de aluguer não está desenvolvido e não há critérios claros sobre se a cedência ou staking de criptoativos deve ser considerada tributável. Caso a tributação seja implementada nestas condições, os utilizadores das principais bolsas nacionais seriam tributados, enquanto os utilizadores de plataformas estrangeiras poderiam escapar ao escrutínio, levantando dúvidas quanto à justiça na aplicação.
De acordo com um responsável do Ministério da Estratégia e das Finanças, “os grandes investimentos podem ser monitorizados, mas as pequenas transações de investidores individuais continuam difíceis de rastrear”. O governo espera que, após a adesão formal da Coreia do Sul ao Crypto-Asset Reporting Framework da OCDE, o acordo internacional — que permite a 48 países partilhar dados de transações em criptoativos — contribua para garantir uma tributação adequada.
A criação deste enquadramento internacional é um passo crucial para incrementar a transparência nas operações de criptoativos transfronteiriças, embora a sua implementação demore tempo.
A implementação fiscal mantém-se suspensa, mas as ações de fiscalização no âmbito da conformidade com criptoativos estão a intensificar-se rapidamente. Nos últimos quatro anos, a Autoridade Tributária Nacional apreendeu mais de 146 mil milhões de KRW em criptoativos pertencentes a mais de 14 000 contribuintes em incumprimento. As autoridades avisam que, caso não sejam regularizados impostos em dívida, poderão deslocar-se a residências e apreender diretamente cold wallets.
“Com programas de monitorização, já conseguimos acompanhar o histórico de transações em criptoativos dos que recusam pagar impostos. Se houver suspeita de moedas escondidas offline, podemos proceder a buscas domiciliárias”, explicou um porta-voz.
As autarquias iniciaram também as suas próprias ações de fiscalização. Desde 2021, a cidade de Cheongju apreendeu criptoativos a 203 residentes e abriu contas em bolsas nacionais para liquidar diretamente os ativos apreendidos. O distrito de Gangnam, em Seul, apreendeu recentemente 340 milhões de KRW.
Entretanto, a Korea Financial Intelligence Unit (FIU) prepara novas sanções resultantes de avaliações de prevenção ao branqueamento de capitais nas principais bolsas, incluindo as líderes nacionais.
A Financial Services Commission indica que o número de utilizadores certificados em bolsas nacionais atingiu 10,77 milhões no primeiro semestre do último período, quase equiparando os 14,23 milhões de investidores em ações registados no final do ano. Segundo os dados, 78,9 biliões de KRW em criptoativos foram transferidos de bolsas nacionais para plataformas estrangeiras ou carteiras pessoais, sugerindo que os negociadores poderão estar a reposicionar-se antes da tributação.
Recentemente, Park Ju-chul, do Korea Institute of Public Finance, advertiu que ambiguidades por resolver podem originar contestações judiciais após a entrada em vigor do imposto. Apelou aos responsáveis políticos para que aproveitem o tempo disponível para “clarificar definições essenciais e preparar-se para os desafios da partilha internacional de dados”.
Este cenário reforça a necessidade de o governo sul-coreano equilibrar o controlo regulatório e a fiscalização, à medida que o mercado de criptoativos cresce rapidamente. Conciliar a proteção do investidor com a arrecadação fiscal continuará a ser um grande desafio no futuro.
A Coreia do Sul aplica imposto sobre o rendimento a lucros provenientes da negociação de criptoativos, e imposto sobre doações a transferências ou ofertas. Lucros e mais-valias de operações em bolsa estão sujeitos a tributação.
O governo adia a tributação de criptoativos para reduzir o impacto nos investidores e evitar perturbações abruptas no mercado. A política visa estabilizar os mercados e apoiar o crescimento do setor.
Os adiamentos reduzem a incerteza dos investidores e reforçam a confiança no mercado. Isto permite estratégias de investimento a longo prazo, aumenta a liquidez e estimula o apetite pelo investimento.
A tributação de criptoativos está prevista para janeiro de 2025. Apesar de já ter sido adiada várias vezes, o plano atual prevê uma taxa de 20% a partir de 2025, com a introdução de um limiar de isenção.
São tributáveis os ganhos de vendas, trocas por outros criptoativos, recompensas de mining, staking e cedência, bem como ganhos resultantes de pagamentos. Todos são classificados como rendimentos diversos, sendo obrigatória a declaração se houver lucros realizados.
A política sul-coreana considera os criptoativos como propriedade e tributa os ganhos aquando da venda. Aplicam-se tanto o imposto anual sobre o rendimento como o imposto sobre património, e desde 2022 vigoram requisitos de reporte mais rigorosos.











