
O Grupo Parlamentar Sumar, em Espanha, apresentou recentemente três alterações relevantes ao regime fiscal aplicado aos criptoativos, assinalando uma viragem significativa na forma como estes ativos digitais passam a ser enquadrados pela lei espanhola. Estas propostas, entregues no Congresso dos Deputados, pretendem alterar profundamente o peso fiscal para investidores e operadores de criptoativos dentro da jurisdição espanhola.
A proposta com maior impacto sugere que os ganhos obtidos com criptoativos—nomeadamente os que não são considerados instrumentos financeiros tradicionais—devam ser tributados pela taxa geral do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRPF), em vez da atual taxa da base de poupança. Esta alteração constitui um aumento expressivo, uma vez que a taxa geral do IRPF pode ascender a 47%, comparativamente ao teto de 30% atualmente em vigor na base de poupança. Assim, os ganhos com criptoativos passariam a ser enquadrados fiscalmente da mesma forma que os rendimentos do trabalho ou os lucros empresariais, agravando substancialmente a carga fiscal dos investidores em criptoativos.
Atualmente, os ativos em cripto beneficiam das taxas da base de poupança, criadas especificamente para rendimentos de investimento e mais-valias. A passagem para a base geral do IRPF eliminaria este benefício, podendo posicionar Espanha como uma das jurisdições com maior tributação sobre atividades com criptoativos a nível europeu. Esta orientação tem gerado debate entre economistas, especialistas fiscais e a comunidade cripto, face ao potencial impacto na posição de Espanha no ecossistema dos ativos digitais.
Adicionalmente, a proposta integra normas para a tributação empresarial, propondo que os ganhos realizados por empresas com cripto sejam tributados ao abrigo do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas, à taxa fixa de 30%. Desta forma, seria criado um sistema paralelo de tributação para investidores particulares e empresariais em criptoativos, cada qual confrontando-se com obrigações fiscais distintas.
Como terceira medida de relevo, a proposta determina que a Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV) desenvolva e implemente um sistema visual de avaliação de risco para ativos digitais. Este sistema inovador de “semáforo” seria obrigatório em todas as plataformas de investimento em território espanhol, fornecendo aos utilizadores indicadores de risco claros e codificados por cor, facilitando uma avaliação informada.
O sistema de semáforo avaliaria as criptomoedas tendo em conta fatores essenciais como o registo oficial, a supervisão regulatória, as garantias de ativos e a liquidez do mercado. O sinal verde corresponderia a ativos de risco reduzido, com forte cumprimento regulatório e garantias, o amarelo sinalizaria risco intermédio, e o vermelho alertaria para ativos de elevado risco ou não regulados. Esta abordagem visual visa simplificar a avaliação de riscos para investidores de retalho com menor formação técnica sobre criptoativos.
O economista e consultor fiscal José Antonio Bravo Mateu tem-se mostrado especialmente crítico em relação a estas propostas, classificando-as como medidas que “claramente vão contra Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas.” Na sua análise, o efeito combinado do agravamento fiscal e do reforço do escrutínio poderá travar de forma significativa a adoção e o investimento em criptoativos em Espanha.
Além disso, a proposta alarga o conceito de bens apreensíveis a todas as criptomoedas, não só às abrangidas pelo regime MiCA (Mercados de Criptoativos) da União Europeia. Este alargamento concede às autoridades espanholas poderes mais vastos para apreender ativos digitais em casos de evasão fiscal, cobrança de dívidas ou decisões judiciais, levantando preocupações sobre direitos de propriedade e garantias processuais no setor dos ativos digitais.
A advogada Chris Carrascosa manifestou sérias dúvidas quanto à execução prática destas medidas, considerando a proposta “inexequível” no modelo atual. Sublinha que, caso avance, a legislação “vai gerar caos absoluto em todo o regime fiscal dos criptoativos em Espanha”, apontando potenciais conflitos com a legislação vigente, dificuldades de aplicação e o risco de afastar investidores e empresas cripto do território espanhol.
Esta proposta assenta em iniciativas anteriores dos legisladores espanhóis para reforçar a transparência e a perceção de risco no mercado de criptoativos. No início do ano, uma coligação de deputados espanhóis liderada pelo Grupo Parlamentar Sumar exigiu que a autoridade reguladora financeira impusesse a obrigatoriedade, às plataformas de criptoativos, de apresentarem avisos de risco do tipo “semáforo”.
A iniciativa visava permitir que os utilizadores avaliassem “de forma clara e visual” o perfil de risco dos ativos digitais antes de tomarem decisões de investimento. O sistema foi desenhado para facultar informação imediata e intuitiva sobre o estatuto regulatório, volatilidade de mercado e riscos potenciais associados a diferentes criptoativos. O grupo propôs ainda medidas polémicas como a renomeação de determinadas criptomoedas, incluindo Bitcoin e Ethereum, de forma a refletir melhor o seu perfil de risco ou estatuto regulatório.
O economista José Antonio criticou estas medidas, considerando-as “ataques inúteis ao Bitcoin” e salientando que ativos como o Bitcoin são “naturalmente resistentes a ataques políticos” devido à sua estrutura descentralizada e alcance global. Defende que tais tentativas regulatórias ignoram as características fundamentais da tecnologia blockchain e das redes descentralizadas.
Numa intervenção incisiva na rede social X, José Antonio advertiu que “a única coisa que estas medidas conseguem é que os detentores residentes em Espanha ponderem sair quando o BTC valorizar tanto que deixe de importar o que dizem os políticos.” Esta declaração ilustra a preocupação crescente entre os defensores das criptomoedas de que regulamentação excessivamente restritiva possa provocar fuga de cérebros e capitais, levando investidores e empresas cripto espanholas a procurar jurisdições mais favoráveis.
O debate reflete uma tensão transversal à regulação europeia dos criptoativos, entre proteger consumidores face a riscos potenciais e promover a inovação no setor dos ativos digitais. Os críticos defendem que a abordagem espanhola poderá ser demasiado restritiva, sufocando uma indústria em crescimento e empurrando as operações cripto para a clandestinidade ou para o exterior.
O contexto fiscal espanhol relativo aos criptoativos tem sido marcado por elevada incerteza e decisões controversas, levantando preocupações entre investidores e juristas. Nos meses seguintes à apresentação da proposta inicial, as autoridades fiscais espanholas destacaram-se ao imporem uma liquidação fiscal de 9 milhões de euros a um operador de criptoativos, relativa a uma transação sem qualquer lucro real. De acordo com a interpretação da Agência Tributária Espanhola, até transações sem ganhos podem ser consideradas eventos de mais-valias sujeitos a tributação.
Este episódio expôs lacunas estruturais na legislação fiscal espanhola aplicável a criptoativos e evidenciou a fragilidade dos investidores perante normas pouco claras. O caso foi alvo de críticas de especialistas jurídicos e chamou a atenção dos supervisores financeiros da União Europeia, que alertaram para a insuficiente proteção e orientação dos investidores espanhóis no setor dos ativos digitais.
O gabinete fiscal espanhol Lullius Partners publicou uma análise detalhada salientando que “a legislação fiscal espanhola continua sem orientações claras sobre a tributação de detenções de criptoativos ou ativos tokenizados.” Sublinhou que este vazio normativo cria desafios tanto para contribuintes como para a administração fiscal, já que “é difícil definir quando e em que circunstâncias as transações em criptoativos são tributáveis.”
A incerteza não se limita às operações clássicas de compra e venda, abrangendo atividades mais complexas como staking, yield farming, trocas de criptomoedas e a tributação de airdrops ou hard forks. Sem normas claras, os contribuintes arriscam-se ao incumprimento involuntário e as autoridades fiscais enfrentam dificuldades na aplicação uniforme das regras a diferentes operações com criptoativos.
Esta ambiguidade regulatória tem travado a adoção de criptoativos em Espanha, com muitos investidores potenciais a recear obrigações fiscais inesperadas ou ações retroativas. O setor tem apelado à reforma fiscal, com regras claras e previsíveis para a tributação dos criptoativos, equilibrando o interesse do Estado em arrecadação fiscal com a necessidade de incentivar a inovação e proteger os direitos dos contribuintes.
A situação em Espanha reflete os desafios enfrentados pelos países europeus ao tentarem regular e tributar uma tecnologia sem fronteiras e em constante evolução. Com a adoção crescente das criptomoedas, a pressão por regulamentação fiscal clara, justa e exequível irá aumentar, exigindo aos decisores quadros capazes de acompanhar a inovação tecnológica salvaguardando receitas fiscais e interesses dos investidores.
O novo projeto fiscal espanhol aplica taxas entre 19% e 47% às recompensas de mineração de BTC e ETH, em função do valor das recompensas obtidas. As taxas são progressivas, de acordo com os escalões de rendimento.
O projeto-lei produz efeitos imediatamente após aprovação legislativa. Não existe tributação retroativa para detentores atuais de criptoativos. As isenções relativas a stablecoins iniciam-se nos anos fiscais posteriores a 31 de dezembro de 2025.
Espanha tributa os ganhos com criptoativos como rendimento ordinário, com taxas entre 19% e 28%, independentemente do período de detenção. Ao contrário de outros países da UE com quadros fiscais específicos para criptoativos, Espanha aplica a tributação geral, sem benefícios ou isenções consoante o período de detenção.
Investidores e exchanges têm de cumprir a nova legislação fiscal espanhola nas operações de compra, venda e troca de criptoativos. Devem manter registos rigorosos de todas as transações, declarar todos os eventos tributáveis, consultar especialistas fiscais e implementar mecanismos de conformidade para responder ao aumento das obrigações fiscais sobre Bitcoin, Ethereum e outros criptoativos.
Sim, o aumento das taxas fiscais sobre BTC e ETH deverá reduzir a confiança dos investidores, potenciando a saída de capitais para jurisdições mais favoráveis e alterando de forma significativa a dinâmica do mercado espanhol.
Atualmente, a nova lei não prevê tributação sobre mineração e staking. No entanto, a política fiscal poderá ser alterada no futuro à medida que a regulamentação evolua.
Os titulares espanhóis de criptoativos têm de declarar ativos totais superiores a 50 000 € até 31 de março, através do Modelo 721. É aplicável um benefício fiscal modular de 25%. O pagamento é feito com base no montante declarado, através do sistema da autoridade fiscal espanhola.











