
Numa conferência internacional dedicada à blockchain, o economista Zoltan Pozsar apresentou uma análise aprofundada sobre a transformação que está a marcar o panorama económico mundial. Pozsar sublinhou que se verifica uma aceleração da descentralização, com novos blocos de poder a redefinir as dinâmicas financeiras internacionais. Atualmente, observa-se a consolidação de duas alianças económicas distintas: uma coligação “Ocidental” e uma “Oriental”, cada uma a criar os seus próprios modelos e mecanismos de comércio.
Esta evolução multipolar rompe com o sistema económico unipolar que prevaleceu desde o pós-guerra. O surgimento de blocos concorrentes traduz tensões geopolíticas profundas e o desejo de diversos países em reforçar a sua soberania económica. Pozsar aponta que esta reconfiguração terá impacto decisivo no comércio mundial, nos fluxos internacionais de capitais e na arquitetura futura dos sistemas monetários. A descentralização já se manifesta em políticas concretas, novos acordos comerciais e infraestruturas financeiras regionais.
Pozsar destacou uma inflexão estratégica na economia americana: a transição de um modelo centrado no consumo para uma estrutura orientada para a produção. Esta alteração tem efeitos significativos no papel do dólar enquanto reserva global. Por décadas, os Estados Unidos sustentaram elevados níveis de consumo através de importações e do estatuto privilegiado do dólar.
Atualmente, a pressão sobre o modelo tradicional cresce, à medida que os EUA apostam na reindustrialização e na redução da dependência externa. Esta mudança, que pode reforçar certos setores internos, desafia os mecanismos que sustentaram a supremacia do dólar. O seu estatuto de reserva resulta em parte do reinvestimento dos excedentes comerciais em ativos financeiros americanos, uma dinâmica que muda com a evolução dos padrões comerciais.
Segundo Pozsar, esta reestruturação pode diminuir gradualmente as vantagens estruturais que mantêm o dólar no centro do sistema financeiro mundial. Ao reduzir a dependência de importações e apostar nas exportações, a procura internacional por dólares poderá decrescer, abrindo caminho a moedas e sistemas de pagamento alternativos no comércio global.
No seu diagnóstico, Pozsar alertou para riscos económicos relevantes em várias economias avançadas, nomeadamente na Europa, Japão e Coreia do Sul. Destacou dois fatores críticos: taxas de juro elevadas e crescentes tensões comerciais. Estes elementos criam um cenário exigente para economias habituadas a taxas baixas e mercados abertos.
Na Europa, a dependência energética e a exposição a tensões geopolíticas aumentam os riscos, agravados por custos de financiamento elevados e relações comerciais instáveis, o que afeta as finanças públicas e a competitividade empresarial. No Japão, a evolução demográfica e o fim de políticas monetárias acomodatícias colocam desafios a um Estado endividado e envelhecido.
Na Coreia do Sul, como potência exportadora, a reorganização das cadeias globais e as alterações nas políticas comerciais pressionam setores-chave. Pozsar enfatiza que estes riscos estão interligados: juros elevados aumentam custos com dívida e travam o crescimento, enquanto as tensões comerciais reduzem receitas de exportação. Estes fatores podem gerar instabilidade financeira global, minando a confiança nas moedas de reserva e acelerando a procura por alternativas de valor.
Face à erosão da confiança nas moedas fiduciárias, Pozsar apresentou recomendações claras sobre alocação de ativos para enfrentar este contexto. Considera o ouro o principal ativo de proteção, aconselhando-o como elemento central para quem procura preservar o património em transições do sistema monetário. Pozsar defende que ativos tangíveis com valor intrínseco superarão as moedas fiduciárias à medida que diminui a confiança nas emissões estatais.
O ouro destaca-se no modelo de Pozsar como reserva de valor universal, imune à política monetária ou ao desempenho económico de qualquer país. Ao contrário das moedas fiduciárias, expostas à inflação ou decisões políticas, o ouro mantém o poder de compra ao longo do tempo. Num mundo multipolar e instável, o ouro representa um ativo neutro, afastado dos riscos específicos de cada moeda ou bloco.
Esta aposta no ouro reflete também preocupações sobre a sustentabilidade das atuais políticas monetárias, como a flexibilização quantitativa e o aumento da dívida pública. Com os bancos centrais a equilibrar o controlo da inflação e o apoio ao crescimento, o risco de desvalorização das moedas aumenta, tornando os ativos reais mais atrativos. Pozsar sugere que o ouro deve ser visto como seguro essencial de carteira, e não apenas investimento especulativo, para mitigar riscos sistémicos na nova ordem económica.
Zoltan Pozsar é estratega dos mercados financeiros globais e fundador da Ex Uno Plures. É reconhecido pela análise de taxas de curto prazo, mercados de financiamento e arquitetura do sistema financeiro, influenciando decisivamente a perceção do mercado sobre os modelos monetários internacionais.
Pozsar antecipa uma economia descentralizada, sem controlo dos bancos centrais nem intermediários financeiros tradicionais. Ao contrário do modelo centralizado, a descentralização aposta em transações peer-to-peer, tecnologia blockchain e governação distribuída, promovendo comércio global transparente sem dependência de intermediários.
Pozsar indica que as mudanças nas políticas dos bancos centrais e os desequilíbrios globais entre oferta e procura são os principais motores. Com os bancos centrais a passarem da valorização de ativos para a gestão da deflação, as vulnerabilidades estruturais aumentam a procura por alternativas descentralizadas.
A transição para uma economia multipolar enfraquece gradualmente o estatuto de reserva do dólar, pois os bancos centrais diversificam para ouro, outras moedas e ativos locais. O declínio será lento devido à escassez de alternativas, mas a erosão é inevitável perante fragilidades fiscais e menor influência geopolítica.
As moedas digitais e a tecnologia blockchain vão viabilizar transações descentralizadas e registos distribuídos transparentes, reduzindo a dependência das instituições financeiras tradicionais e promovendo um sistema económico global mais eficiente.
As instituições tradicionais enfrentam disrupção estrutural, com funções essenciais a transitarem para gestores de ativos, plataformas fintech e redes blockchain. Os bancos centrais terão de adaptar instrumentos a sistemas menos centrados nos bancos. A regulação debate-se com riscos dispersos por entidades não supervisionadas. A eficácia das políticas económicas decresce com fluxos de capitais fora do controlo convencional.
Pozsar estima que a transição para uma economia global descentralizada dure vários anos, exigindo ajustamentos políticos e reformas institucionais. As etapas incluem revisão dos mecanismos monetários, adaptação das infraestruturas de mercado e transição gradual para sistemas descentralizados à medida que evoluem os modelos tradicionais.
Pressões geopolíticas fragilizam o modelo económico ocidental, levando os países a criar alternativas comerciais e parcerias regionais. Progressivamente, procuram autonomia económica através da diversificação das cadeias de abastecimento, cooperação transfronteiriça e sistemas de pagamento descentralizados, reduzindo a dependência das instituições financeiras centralizadas e do controlo ocidental.











