Os pensadores que impulsaram o desenvolvimento da blockchain e da Web3 enfrentam uma questão fundamental. Trata-se do dilema entre o progresso impulsionado pela inovação tecnológica e os efeitos colaterais da concentração de poder.
As três forças que moldam a sociedade moderna
Na nossa era, três grandes forças dominam a sociedade. Uma é o enorme poder do governo, outra são as empresas em contínimo crescimento, e a terceira é a escalada da sociedade civil organizada.
A força coercitiva do governo exerce uma influência imensurável sobre os indivíduos. Ao longo da história, os pensadores liberais enfrentaram o desafio de domesticar o Leviatã. O Estado de direito, a separação de poderes e a tradição do common law — todos esses mecanismos visam manter a ordem enquanto evitam abusos de poder.
Quanto às empresas, há preocupações semelhantes. Contudo, o problema aqui é mais complexo. As empresas nem sempre são “maléficas”; na verdade, elas são otimizadas para maximizar lucros, um objetivo singular. Essa busca por eficiência, à medida que as empresas crescem, tende a se afastar do interesse social geral. O espírito empreendedor de outrora muitas vezes se transforma em uma busca por lucro. Indústrias de jogos, mercados preditivos e até o setor de ativos criptográficos não escapam dessa tendência.
A sociedade civil também apresenta riscos. Instituições independentes, organizações beneficentes e projetos como a Wikipédia deveriam representar a diversidade. No entanto, historicamente, quando a sociedade civil se torna excessivamente organizada e concentrada em um único objetivo ou líder, surgem extremos como a Revolução Francesa ou o Movimento Taiping.
A inevitável concentração impulsionada pela economia de escala
Para compreender os desafios do século XXI, é imprescindível entender o fenômeno da “economia de escala”. Antigamente, a distância geográfica e os custos de comunicação limitavam naturalmente a concentração de poder. Hoje, esse freio natural deixou de funcionar.
Através da internet, a difusão de ideias atingiu níveis sem precedentes. Simultaneamente, a “dispersão do controle” recuou significativamente. Tecnologias de automação e computação em nuvem permitem que poucas empresas gerenciem recursos massivos. A disseminação de softwares e hardwares proprietários dificultou a democratização do conhecimento, antes facilitada pela “engenharia reversa”.
Como resultado, os efeitos da economia de escala se intensificam exponencialmente. Pequenas diferenças iniciais podem, com o tempo, gerar disparidades esmagadoras.
Estratégias para promover a “dispersão”
Diante dessa crise, é necessário promover deliberadamente uma maior “dispersão”. Diversas abordagens podem ser adotadas, desde políticas governamentais até implementações tecnológicas privadas.
Intervenções em nível de política
Exemplos incluem a imposição do padrão USB-C na UE e a proibição de cláusulas de não concorrência nos EUA, que promovem a difusão tecnológica. Permitir que funcionários utilizem habilidades adquiridas em uma empresa em outras amplia a disseminação da inovação.
Licenças copyleft (como a GPL) também seguem essa direção. O desenvolvimento baseado em código aberto busca evitar a monopolização do conhecimento, obrigando a manutenção de formas abertas de código.
Outra ideia avançada é a taxação proporcional ao grau de “propriedade exclusiva” de um produto. Sistemas como o “Imposto sobre Portos de Propriedade Intelectual” podem incentivar os detentores a devolverem suas tecnologias à sociedade de forma eficiente.
Interoperabilidade resistente
A “interoperabilidade contrária”, proposta pelo escritor de ficção científica Corey Doctorow, refere-se à capacidade de desenvolver novos serviços e conectar-se a sistemas existentes sem permissão das plataformas atuais.
Especificamente:
Clientes alternativos para redes sociais: usuários podem visualizar conteúdos de outras plataformas por interfaces diferentes, escolhendo livremente seus filtros
Extensões de navegador: bloqueadores de anúncios, ferramentas de detecção de conteúdo gerado por IA, que contornam os mecanismos de monetização das plataformas
Trocas descentralizadas de moedas fiduciárias e criptomoedas: reduzem riscos de pontos únicos de falha no sistema financeiro
Hoje, grande parte do valor é gerada na interface do usuário. Assim, desenvolver interfaces alternativas independentes das plataformas é fundamental para uma verdadeira descentralização do poder.
Diversidade e convivência
A ideia de “diversidade”, defendida por Glenn Weyl e Audrey Tang, refere-se a criar ambientes onde diferentes opiniões e objetivos possam colaborar de forma mais eficiente. Comunidades de código aberto e uniões de nações exemplificam esse princípio, aproveitando os benefícios da economia de escala enquanto evitam a concentração de poder em uma única entidade.
A relação entre filantropia e equilíbrio de poder
A filantropia ocupa uma posição única na estratégia de equilíbrio de poder. Os mercados não financiam bens públicos. Os governos evitam investir em projetos que não sejam de “consenso entre elites” ou que beneficiem apenas um país. Para preencher essa lacuna, indivíduos ricos frequentemente atuam por meio de doações beneficentes.
Porém, é preciso cautela. A filantropia só é valiosa enquanto funciona como uma força de contenção contra o poder estatal. Se ela passar a substituir o Estado e concentrar poder, acelerando a centralização, seu efeito será negativo.
Nos últimos anos, no Vale do Silício, essa mudança perigosa tem se manifestado. Líderes tecnológicos, em vez de defenderem mecanismos de saída liberais, tentam direcionar o governo de acordo com seus interesses. Isso é um sinal de alerta de que o equilíbrio de poder está se inclinando de forma perigosa.
D/acc: o caminho para uma descentralização defensiva
A hipótese de “mundo frágil” levanta questões sérias. Com a evolução tecnológica, aumenta a possibilidade de agentes capazes de causar danos catastróficos à humanidade. Alguns argumentam que a concentração de poder é a única solução. Na prática, o oposto é verdadeiro.
D/acc (aceleração defensiva) significa desenvolver tecnologias de defesa na mesma velocidade das tecnologias ofensivas. O crucial é que essas defesas sejam abertas, universais e acessíveis a todos. Assim, é possível reduzir a demanda psicológica por centralização de poder, alimentada pelo medo de insegurança.
Uma nova ética: exercer poder sem dominar
A moral tradicional apresenta dois extremos. A moral da escravidão diz que “não se deve permitir que alguém seja forte”, enquanto a moral do senhor afirma que “é preciso se tornar forte”.
Porém, uma ética baseada no equilíbrio de poder sugere um caminho diferente: “Você não deve buscar hegemonia, mas deve buscar gerar impacto positivo e capacitar os outros”.
Essa visão reinterpretou a dicotomia entre “delegar autoridade” e “controlar”. Para realizá-la, há duas estratégias: manter uma alta “dispersão” no mundo externo e minimizar o “potencial de uso do poder” ao projetar sistemas.
Exemplo prático: o modelo descentralizado do Lido
O Lido, no ecossistema Ethereum, exemplifica bem esse princípio. Atualmente, cerca de 24% do ETH em staking na rede é gerenciado pelo Lido, mas sua concentração é menor do que a de outros atores com nível semelhante de controle social.
Isso ocorre porque o Lido não é uma entidade única, mas uma DAO descentralizada, com dezenas de operadores de nós e um sistema de “dupla governança”. Os stakers de ETH têm direito de veto sobre decisões importantes.
A comunidade Ethereum reforça que, mesmo com essas garantias, o Lido não deve monopolizar toda a quantidade de staking. Essa cautela reflete uma postura consciente dos riscos de centralização de poder.
Conclusão: conciliar negócios e descentralização
Projetos futuros devem enfrentar um desafio que vai além do simples “modelo de negócio”. É necessário também conceber claramente um “modelo de descentralização”. Ou seja, refletir sobre como evitar se tornar um nó de concentração de poder e como lidar com os riscos de “controle de poder”.
Algumas áreas facilitam a descentralização. Protocolos abertos (como TCP, IP, HTTP) são amplamente aceitos sem preocupações. Mas, em aplicações específicas, a descentralização é extremamente difícil. Em cenários que exigem “capacidade de decisão”, encontrar formas de manter “vantagens de flexibilidade” enquanto se evita os efeitos colaterais da concentração de poder será uma questão crucial por muito tempo.
O equilíbrio entre vigor comercial e poder não é incompatível. Pelo contrário, uma sociedade que combina sistemas bem projetados para ambos é a que pode alcançar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.
Ver original
Esta página pode conter conteúdos de terceiros, que são fornecidos apenas para fins informativos (sem representações/garantias) e não devem ser considerados como uma aprovação dos seus pontos de vista pela Gate, nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Declaração de exoneração de responsabilidade para obter mais informações.
「Equilíbrio de Poder» e «Dinâmica Comercial»: Soluções para o Dilema na Sociedade Descentralizada
Os pensadores que impulsaram o desenvolvimento da blockchain e da Web3 enfrentam uma questão fundamental. Trata-se do dilema entre o progresso impulsionado pela inovação tecnológica e os efeitos colaterais da concentração de poder.
As três forças que moldam a sociedade moderna
Na nossa era, três grandes forças dominam a sociedade. Uma é o enorme poder do governo, outra são as empresas em contínimo crescimento, e a terceira é a escalada da sociedade civil organizada.
A força coercitiva do governo exerce uma influência imensurável sobre os indivíduos. Ao longo da história, os pensadores liberais enfrentaram o desafio de domesticar o Leviatã. O Estado de direito, a separação de poderes e a tradição do common law — todos esses mecanismos visam manter a ordem enquanto evitam abusos de poder.
Quanto às empresas, há preocupações semelhantes. Contudo, o problema aqui é mais complexo. As empresas nem sempre são “maléficas”; na verdade, elas são otimizadas para maximizar lucros, um objetivo singular. Essa busca por eficiência, à medida que as empresas crescem, tende a se afastar do interesse social geral. O espírito empreendedor de outrora muitas vezes se transforma em uma busca por lucro. Indústrias de jogos, mercados preditivos e até o setor de ativos criptográficos não escapam dessa tendência.
A sociedade civil também apresenta riscos. Instituições independentes, organizações beneficentes e projetos como a Wikipédia deveriam representar a diversidade. No entanto, historicamente, quando a sociedade civil se torna excessivamente organizada e concentrada em um único objetivo ou líder, surgem extremos como a Revolução Francesa ou o Movimento Taiping.
A inevitável concentração impulsionada pela economia de escala
Para compreender os desafios do século XXI, é imprescindível entender o fenômeno da “economia de escala”. Antigamente, a distância geográfica e os custos de comunicação limitavam naturalmente a concentração de poder. Hoje, esse freio natural deixou de funcionar.
Através da internet, a difusão de ideias atingiu níveis sem precedentes. Simultaneamente, a “dispersão do controle” recuou significativamente. Tecnologias de automação e computação em nuvem permitem que poucas empresas gerenciem recursos massivos. A disseminação de softwares e hardwares proprietários dificultou a democratização do conhecimento, antes facilitada pela “engenharia reversa”.
Como resultado, os efeitos da economia de escala se intensificam exponencialmente. Pequenas diferenças iniciais podem, com o tempo, gerar disparidades esmagadoras.
Estratégias para promover a “dispersão”
Diante dessa crise, é necessário promover deliberadamente uma maior “dispersão”. Diversas abordagens podem ser adotadas, desde políticas governamentais até implementações tecnológicas privadas.
Intervenções em nível de política
Exemplos incluem a imposição do padrão USB-C na UE e a proibição de cláusulas de não concorrência nos EUA, que promovem a difusão tecnológica. Permitir que funcionários utilizem habilidades adquiridas em uma empresa em outras amplia a disseminação da inovação.
Licenças copyleft (como a GPL) também seguem essa direção. O desenvolvimento baseado em código aberto busca evitar a monopolização do conhecimento, obrigando a manutenção de formas abertas de código.
Outra ideia avançada é a taxação proporcional ao grau de “propriedade exclusiva” de um produto. Sistemas como o “Imposto sobre Portos de Propriedade Intelectual” podem incentivar os detentores a devolverem suas tecnologias à sociedade de forma eficiente.
Interoperabilidade resistente
A “interoperabilidade contrária”, proposta pelo escritor de ficção científica Corey Doctorow, refere-se à capacidade de desenvolver novos serviços e conectar-se a sistemas existentes sem permissão das plataformas atuais.
Especificamente:
Hoje, grande parte do valor é gerada na interface do usuário. Assim, desenvolver interfaces alternativas independentes das plataformas é fundamental para uma verdadeira descentralização do poder.
Diversidade e convivência
A ideia de “diversidade”, defendida por Glenn Weyl e Audrey Tang, refere-se a criar ambientes onde diferentes opiniões e objetivos possam colaborar de forma mais eficiente. Comunidades de código aberto e uniões de nações exemplificam esse princípio, aproveitando os benefícios da economia de escala enquanto evitam a concentração de poder em uma única entidade.
A relação entre filantropia e equilíbrio de poder
A filantropia ocupa uma posição única na estratégia de equilíbrio de poder. Os mercados não financiam bens públicos. Os governos evitam investir em projetos que não sejam de “consenso entre elites” ou que beneficiem apenas um país. Para preencher essa lacuna, indivíduos ricos frequentemente atuam por meio de doações beneficentes.
Porém, é preciso cautela. A filantropia só é valiosa enquanto funciona como uma força de contenção contra o poder estatal. Se ela passar a substituir o Estado e concentrar poder, acelerando a centralização, seu efeito será negativo.
Nos últimos anos, no Vale do Silício, essa mudança perigosa tem se manifestado. Líderes tecnológicos, em vez de defenderem mecanismos de saída liberais, tentam direcionar o governo de acordo com seus interesses. Isso é um sinal de alerta de que o equilíbrio de poder está se inclinando de forma perigosa.
D/acc: o caminho para uma descentralização defensiva
A hipótese de “mundo frágil” levanta questões sérias. Com a evolução tecnológica, aumenta a possibilidade de agentes capazes de causar danos catastróficos à humanidade. Alguns argumentam que a concentração de poder é a única solução. Na prática, o oposto é verdadeiro.
D/acc (aceleração defensiva) significa desenvolver tecnologias de defesa na mesma velocidade das tecnologias ofensivas. O crucial é que essas defesas sejam abertas, universais e acessíveis a todos. Assim, é possível reduzir a demanda psicológica por centralização de poder, alimentada pelo medo de insegurança.
Uma nova ética: exercer poder sem dominar
A moral tradicional apresenta dois extremos. A moral da escravidão diz que “não se deve permitir que alguém seja forte”, enquanto a moral do senhor afirma que “é preciso se tornar forte”.
Porém, uma ética baseada no equilíbrio de poder sugere um caminho diferente: “Você não deve buscar hegemonia, mas deve buscar gerar impacto positivo e capacitar os outros”.
Essa visão reinterpretou a dicotomia entre “delegar autoridade” e “controlar”. Para realizá-la, há duas estratégias: manter uma alta “dispersão” no mundo externo e minimizar o “potencial de uso do poder” ao projetar sistemas.
Exemplo prático: o modelo descentralizado do Lido
O Lido, no ecossistema Ethereum, exemplifica bem esse princípio. Atualmente, cerca de 24% do ETH em staking na rede é gerenciado pelo Lido, mas sua concentração é menor do que a de outros atores com nível semelhante de controle social.
Isso ocorre porque o Lido não é uma entidade única, mas uma DAO descentralizada, com dezenas de operadores de nós e um sistema de “dupla governança”. Os stakers de ETH têm direito de veto sobre decisões importantes.
A comunidade Ethereum reforça que, mesmo com essas garantias, o Lido não deve monopolizar toda a quantidade de staking. Essa cautela reflete uma postura consciente dos riscos de centralização de poder.
Conclusão: conciliar negócios e descentralização
Projetos futuros devem enfrentar um desafio que vai além do simples “modelo de negócio”. É necessário também conceber claramente um “modelo de descentralização”. Ou seja, refletir sobre como evitar se tornar um nó de concentração de poder e como lidar com os riscos de “controle de poder”.
Algumas áreas facilitam a descentralização. Protocolos abertos (como TCP, IP, HTTP) são amplamente aceitos sem preocupações. Mas, em aplicações específicas, a descentralização é extremamente difícil. Em cenários que exigem “capacidade de decisão”, encontrar formas de manter “vantagens de flexibilidade” enquanto se evita os efeitos colaterais da concentração de poder será uma questão crucial por muito tempo.
O equilíbrio entre vigor comercial e poder não é incompatível. Pelo contrário, uma sociedade que combina sistemas bem projetados para ambos é a que pode alcançar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.