O papel do dólar no mercado de criptomoedas do Brasil: de "mercado emergente de altas taxas" a laboratório global de ativos digitais

Quando o mercado global de ativos criptográficos busca o próximo polo de crescimento, o Brasil está a tornar-se numa resposta difícil de ignorar. Este país não só atraiu o olhar do capital internacional, como também, mais importante, demonstra como um mercado de criptomoedas pode estar profundamente integrado no sistema financeiro tradicional, especialmente na questão central de residentes e empresas que procuram trocar dólares através de stablecoins, oferecendo uma solução relativamente madura.

A verdadeira face do principal jogador de criptomoedas na América Latina: dimensão do mercado brasileiro e domínio das stablecoins

O Brasil tornou-se no maior e mais rápido mercado de criptomoedas da América Latina. Segundo o Relatório Geográfico de Criptomoedas 2025, publicado pela empresa de análise de dados on-chain Chainalysis, em 2024, o valor de ativos criptográficos que entrou no Brasil foi de aproximadamente 318,8 mil milhões de dólares, com uma taxa de crescimento de 109,9% em relação ao trimestre anterior, representando cerca de um terço do total de entradas na região da América Latina, e ocupa a quinta posição no índice global de adoção de criptomoedas.

O que melhor reflete a atividade do mercado é o volume de transações. Segundo as últimas estatísticas da Receita Federal do Brasil, o volume de transações de criptomoedas reportado sob a regulamentação vigente já atinge entre 6 e 8 mil milhões de dólares por mês, com tendência de aumento. O auditor do departamento, Flavio Correa Prado, previu na Conferência de Blockchain do Brasil que, se essa taxa de crescimento continuar, o volume médio mensal de transações poderá ultrapassar os 9 mil milhões de dólares até 2030.

O aspecto mais distintivo do mercado brasileiro é a posição absoluta das stablecoins. Segundo uma análise especializada da Fireblocks, uma empresa de custódia de tecnologia de criptomoedas, em 2024, as transações com stablecoins no Brasil representaram 44,7%, muito acima da média global. O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, revelou em discurso público que, se incluirmos pagamentos transfronteiriços, liquidações em bolsas e outros processos, cerca de 90% dos ativos criptográficos no país podem ser rastreados até operações relacionadas com stablecoins. Essa proporção elevada de uso de stablecoins indica que o mercado de criptomoedas no Brasil não é um paraíso especulativo, mas sim um mercado com um grau relativamente elevado de “financeirização e conformidade”.

Do B3 à carteira Nubank: o ecossistema de produtos de criptomoedas maduro no Brasil

O Brasil promove ativamente a conformidade dos ativos criptográficos dentro do sistema. A bolsa de valores B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) tornou-se na plataforma de negociação mais rica em produtos de criptomoedas na América Latina. Desde 2021-2022, empresas de gestão de ativos como Hashdex e QR Asset lançaram na B3 vários ETFs, incluindo Bitcoin, Ethereum e índices compostos de criptomoedas.

Em setembro do ano passado, a autoridade reguladora brasileira tomou uma decisão audaciosa ao aprovar o primeiro ETF de uma única ativo de Solana na B3, meses antes do lançamento de produtos semelhantes nos EUA. Até meados de 2025, a plataforma B3 tinha mais de 20 ETFs que oferecem exposição parcial ou total a criptomoedas, incluindo Bitcoin, Ethereum, índices DeFi e combinações de Bitcoin.

Em dezembro de 2024, a empresa listada na Nasdaq, DeFi Technologies, anunciou que sua subsidiária Valour foi aprovada para listar quatro novos produtos de ativos digitais na B3, com ativos subjacentes incluindo Bitcoin, Ethereum, XRP e Sui, denominados em real brasileiro e negociados através de corretoras e sistemas de custódia locais. O CEO da empresa, Johan Wattenström, afirmou que o Brasil “se tornou um dos mercados de ativos digitais mais importantes e de mais rápido crescimento do mundo”.

No nível de retalho, o Brasil desenvolveu um ecossistema bastante completo de participantes. Exchanges locais como Mercado Bitcoin combinam corretagem, custódia e emissão de ativos; bancos digitais líderes como Nubank incorporaram funcionalidades de investimento em criptomoedas diretamente nos seus aplicativos móveis, tendo cerca de 6,6 milhões de clientes de criptomoedas, tornando-se um dos maiores bancos de criptomoedas do mundo; o PicPay possui mais de 60 milhões de utilizadores, com departamentos independentes de criptomoedas e Web3, atuando em negociação, stablecoins e contas globais.

Os dados divulgados pela Circle e Nubank merecem destaque: em 2024, o saldo de USDC detido pelos clientes do Nubank cresceu dez vezes, com cerca de 30% da carteira de clientes de criptomoedas contendo USDC, e mais da metade dos novos utilizadores optando por USDC na sua primeira compra de ativos digitais. Em 2025, o Nubank lançou um programa de rendimento anual de 4% para detentores de USDC, integrando oficialmente a função de stablecoin na lógica de gestão financeira bancária.

A escolha racional na desvalorização da moeda: por que os brasileiros precisam de trocar dólares por stablecoins

Embora a inflação no Brasil não seja tão extrema quanto na Argentina, o ambiente macroeconómico também impõe uma pressão de longo prazo na proteção da riqueza dos residentes. Monitorizado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional, o Brasil tem visto a inflação ultrapassar várias vezes o limite superior da meta do banco central desde 2021. Em agosto de 2025, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) aumentou cerca de 5,1% em relação ao ano anterior, ainda acima do limite superior de 4,5% da meta.

A ameaça mais direta vem da desvalorização da moeda local. Nos últimos dez anos, o real brasileiro enfrentou várias fases de desvalorização significativa face ao dólar: de cerca de 2 BRL/USD em 2013, até mais de 5 BRL/USD em 2020-2021. Embora tenha havido alguma recuperação nos últimos dois anos, ainda permanece muito mais fraco do que no início da década de 2010.

Essa desvalorização longa e gradual impacta profundamente as famílias de classe média e as empresas. Muitas optam por fazer depósitos em dólares, contas offshore ou usar stablecoins para “fugir” do risco cambial. As empresas também aumentaram a procura por hedge, especialmente importadores, exportadores e empresas dependentes de commodities, que precisam de uma unidade de valor mais estável fora do balanço de ativos e passivos em moeda local.

O Brasil mantém há anos uma taxa de juros básica de dois dígitos, embora a taxa nominal pareça elevada, o poder de compra real não é estável, criando um terreno fértil para produtos financeiros inovadores como “spread de juros”. Nesse contexto macroeconómico, trocar dólares por stablecoins é uma resposta racional dos residentes e empresas às oscilações cambiais e às restrições de capital.

A Chainalysis, na sua análise específica para a América Latina, resume as três principais funções das stablecoins na região: proteção contra risco cambial, remessas transfronteiriças e comércio, e pagamentos em comércio eletrónico. Os residentes e empresas brasileiros procuram stablecoins como USDT/USDC como uma alternativa às contas offshore em dólares.

A infraestrutura de pagamentos digitais, cada vez mais desenvolvida, também reduz as barreiras à troca de dólares. O sistema de pagamentos instantâneos Pix, liderado pelo Banco Central, tornou-se no principal canal de transferências e consumo diário. Em 2024, a integração do Circle com o sistema Pix permite que os utilizadores brasileiros façam trocas livres entre real e USDC em poucos minutos, através de transferências bancárias locais. Empresas de infraestrutura de pagamento, como a TransFi, inovam ao combinar stablecoins com Pix para remessas transfronteiriças, pagamentos em comércio eletrónico e pagamentos a freelancers, automatizando a troca de moeda.

De alertas de risco à legislação completa: a evolução de uma década do quadro regulatório no Brasil

O rápido desenvolvimento do mercado de criptomoedas no Brasil não resulta de uma regulamentação repentina, mas de uma evolução gradual ao longo de dez anos, envolvendo o Estado, o mercado e as empresas.

Em 2014, quando as criptomoedas começaram a emergir, o Banco Central do Brasil publicou um aviso de risco sobre as chamadas “moedas virtuais”, esclarecendo que não se tratava de dinheiro eletrônico sob a legislação nacional. O banco central também afirmou que, na altura, os ativos criptográficos representavam uma ameaça limitada ao sistema financeiro do país, mas comprometeu-se a monitorar continuamente.

Durante o boom de ICOs em 2017, o Banco Central voltou a emitir declarações, reforçando que as moedas virtuais não estavam sob supervisão financeira brasileira, não tinham garantia soberana, apresentavam alta volatilidade e riscos de lavagem de dinheiro e atividades ilegais. Nesse mesmo ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) publicou orientações sobre ICOs, indicando que alguns tokens poderiam constituir valores mobiliários sujeitos à supervisão da CVM, e proibiu fundos de investimento de deterem diretamente criptomoedas, alegando que estas não se enquadravam na definição de “ativos financeiros” na legislação vigente. Nessa fase, as autoridades não proibiram indivíduos ou empresas de possuírem ou utilizarem ativos de alto risco, mas recusaram-se a reconhecê-los como ativos financeiros.

O ponto de viragem ocorreu em 2019, quando a Receita Federal do Brasil publicou instruções normativas exigindo que provedores de serviços de ativos virtuais, incluindo exchanges, reportassem informações de transações de usuários às autoridades fiscais; residentes que realizassem transações de grande escala em plataformas estrangeiras ou de forma extrajudicial também tinham de declarar esses ativos, e os rendimentos deveriam ser tributados. Assim, os ativos criptográficos passaram a integrar oficialmente o quadro de tributação e controle cambial.

No final de 2022, o Brasil aprovou a Lei Federal nº 14.478, conhecida como “Lei de Criptomoedas”, que estabeleceu pela primeira vez a categoria jurídica de “provedores de serviços de ativos virtuais (VASP)”, autorizando o Banco Central, a CVM e outros órgãos administrativos a criar regras específicas. Em 2023, o governo regulamentou formalmente os “serviços de ativos virtuais sob supervisão” dentro do sistema financeiro. A Chainalysis destaca que isso criou as bases para que o Brasil seja pioneiro na América Latina na construção de um “quadro regulatório completo de criptomoedas”.

Em 2025, o Brasil aprofundou a legislação sobre ativos criptográficos. O Banco Central publicou várias resoluções (519-521), que, no novo sistema de câmbio, consideram stablecoins denominadas em moeda estrangeira ou nacional como uma forma de representação digital de moeda estrangeira ou de direito de recebimento de moeda estrangeira; as instituições que oferecem serviços de troca, pagamento transfronteiriço e liquidação devem obter as licenças cambiais e de pagamento correspondentes; e o governo discute ainda planos de tributação para pagamentos transfronteiriços em criptomoedas, a fim de evitar arbitragem regulatória.

O aspecto mais importante é que esse quadro não trata as stablecoins como “instrumentos ilegais de dolarização”, mas tenta integrá-las num sistema de câmbio monitorável e tributável.

A profunda integração de criptomoedas e finanças: o significado de referência global do Brasil

Ao revisitar a história das criptomoedas no Brasil, percebemos que não se trata de uma narrativa de “liberação repentina e explosiva” nem de uma repressão “totalmente proibitiva”, mas de um caminho único e intermediário:

No contexto de inflação e desvalorização cambial de longo prazo, residentes e empresas procuram espontaneamente instrumentos de hedge, e a procura por stablecoins e troca de dólares surge naturalmente; a infraestrutura financeira tecnológica, como o Pix, amadureceu, integrando as criptomoedas nos sistemas de pagamento e investimento existentes; após anos de observação e restrições parciais, as autoridades optaram por incorporar esse mercado por meio de tributação, legislação de ativos virtuais e novas regras cambiais, tornando-o um sistema visível e controlável.

Em 2024, a Paradigm, um fundo de capital de risco internacional de criptomoedas, anunciou um investimento de 13,5 milhões de dólares na Crown, uma empresa brasileira de stablecoins. A Crown emitiu o BRLV, uma stablecoin atrelada ao real brasileiro 1:1, lastreada por títulos do governo brasileiro, avaliada em cerca de 90 milhões de dólares após captação, com um volume de subscrição superior a 360 milhões de reais, sendo considerada por alguns meios de comunicação como a maior stablecoin não dolarizada de mercados emergentes. Este investimento é uma confirmação do amadurecimento do mercado brasileiro.

Larry Fink, fundador da BlackRock, ao falar na cúpula do Wall Street Journal, afirmou sem rodeios: “Chegámos tarde” — refletindo as expectativas do capital internacional em relação à tokenização de ativos no Brasil. Nos próximos anos, com o avanço do Drex, a implementação do real digital e a chegada de mais projetos de tokenização de ativos, o Brasil provavelmente continuará a ser uma referência global de “integração profunda entre criptomoedas e finanças tradicionais”.

BTC2,33%
ETH2,86%
SOL3,61%
DEFI-1,86%
Ver original
Esta página pode conter conteúdos de terceiros, que são fornecidos apenas para fins informativos (sem representações/garantias) e não devem ser considerados como uma aprovação dos seus pontos de vista pela Gate, nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Declaração de exoneração de responsabilidade para obter mais informações.
  • Recompensa
  • Comentar
  • Republicar
  • Partilhar
Comentar
0/400
Nenhum comentário
  • Fixar

Negocie cripto em qualquer lugar e a qualquer hora
qrCode
Digitalizar para transferir a aplicação Gate
Novidades
Português (Portugal)
  • 简体中文
  • English
  • Tiếng Việt
  • 繁體中文
  • Español
  • Русский
  • Français (Afrique)
  • Português (Portugal)
  • Bahasa Indonesia
  • 日本語
  • بالعربية
  • Українська
  • Português (Brasil)