Recentemente, assisti a uma análise de mercado muito interessante, e percebi que os investidores podem realmente subestimar o poder do impacto geopolítico.



No último primavera, numa reunião do FMI e do Banco Mundial, surgiu uma voz contrária à corrente principal: os mercados globais estavam demasiado otimistas. Os representantes de vários países, banqueiros centrais e economistas presentes começaram a chegar a um consenso — mesmo que o conflito se resolvesse rapidamente, os danos à economia global não desapareceriam de imediato, podendo até piorar antes de melhorar. A lógica por trás disso é bastante sólida: interrupções no fornecimento de energia, rotas comerciais mais longas, aumento da incerteza geopolítica, tudo isso atrasaria o crescimento global.

Um detalhe na altura ilustra bem a questão. O ministro das Finanças do Qatar afirmou abertamente "o que vemos é apenas a ponta do iceberg", enquanto o mercado de ações dos EUA se aproximava de máximos históricos, e o preço do petróleo estava abaixo de 100 dólares. Essa dissociação por si só refletia a confusão na avaliação do mercado. Como país exportador de gás natural liquefeito, o Qatar previu que a escassez de energia se espalharia nos próximos meses, podendo até fazer alguns países "não conseguirem acender as luzes". Ainda mais importante, quase um terço do hélio mundial vem dessa região, e ele é essencial para a fabricação de semicondutores.

Curiosamente, o governo Trump na altura tentou retratar tudo isso como um impacto temporário. O secretário do Tesouro afirmou que a guerra acabaria "em três dias, três semanas, três meses", e que os custos de energia cairiam rapidamente. Mas, numa reunião do FMI e do Banco Mundial a poucos quarteirões da Casa Branca, esse otimismo não tinha base sólida.

O economista-chefe do FMI reduziu as previsões de crescimento, prevendo que a economia global teria o crescimento mais lento desde a pandemia. Ainda mais importante, ele destacou que "a cada dia de interrupção no fornecimento de energia, estamos mais próximos de um cenário adverso". A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, também fez advertências semelhantes. A diretora do Banco Mundial foi mais direta: "Não devemos ver isso apenas como mais um mês de dor, mas como um teste de maior duração." Mesmo que os combates cessem e as instalações energéticas deixem de ser destruídas, o sistema de abastecimento levará tempo para se estabilizar.

Por isso, o diretor da Agência Internacional de Energia afirmou que "março será um mês muito difícil para o mundo, e abril provavelmente será ainda pior". Na altura, a última remessa de petróleo do Golfo Pérsico tinha acabado de chegar ao destino, e o impacto completo do maior choque energético da história ainda não tinha se manifestado totalmente.

O mais confuso é que, sob essas previsões pessimistas, o mercado de ações dos EUA (especialmente o S&P 500) atingiu novas máximas históricas. Alguns analistas acreditam que o mercado subestimou a gravidade da situação, por não reconhecer totalmente as perturbações na cadeia de abastecimento. Outros mencionaram o chamado padrão "TACO" — investidores temendo perder uma oportunidade de mudar de opinião repentinamente, como Trump. Além disso, sinais de possível alívio na situação do Oriente Médio, otimismo com inteligência artificial e expectativas de lucros corporativos fizeram os participantes do mercado abandonarem a cautela.

A presidente do FMI apontou que outro motivo para o otimismo é que a economia dos EUA está relativamente saudável, sendo menos afetada pelo impacto energético por ser um exportador de petróleo. Mas ela também admitiu que "outras regiões do mundo não estão assim, muitas já estão sofrendo bastante". Quando questionada se o mercado deveria ser mais cauteloso, ela respondeu de forma direta: "Deve, porque as interrupções na cadeia de abastecimento já são bastante significativas."

A PwC (PricewaterhouseCoopers) destacou que o mercado subestimou a gravidade do conflito. E pesquisadores ligados ao JPMorgan e à Bridgewater questionaram se o impacto dessa crise energética será como a pandemia de COVID-19 — uma "transmissão em cascata". A Ásia foi a primeira a sentir a interrupção no fornecimento de energia, e agora a Europa também começa a perceber os efeitos, com os EUA sendo o próximo na linha.

Washington também reflete sobre uma questão maior: após os impactos de tarifas, da pandemia e do conflito Rússia-Ucrânia, até que ponto a economia global ainda consegue resistir? Os níveis de dívida já aumentaram, e a capacidade de muitos governos de responder às crises está se enfraquecendo. Um responsável de uma grande consultoria de investimentos afirmou abertamente: "Ninguém sabe quanto tempo falta para o ponto de ruptura, mas a resiliência econômica, financeira e social não é infinita."

É importante notar que o medo de uma crise grave está se espalhando dentro do FMI. A maior preocupação é que a cadeia de reações provocada pelo impacto energético se espalhe pelos mercados financeiros globais. O representante da Nigéria no G24 pediu ao FMI e ao Banco Mundial que mobilizem mais recursos, pois, enquanto essa crise afeta os países em desenvolvimento, os países ricos estão cortando a ajuda externa, e muitas nações pobres já estão devendo mais do que recebem em assistência.

Pesquisadores experientes como Christine Buckshaw enfatizam que o que o mercado não percebe é que a propagação e o impacto dessa crise energética podem ser semelhantes aos da COVID-19. Não se trata de um impacto de curto prazo, mas de uma reestruturação sistêmica que levará tempo para ser assimilada. Sob essa perspectiva, o otimismo do mercado global realmente merece uma revisão.
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