
O diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Pablo Hernández de Cos, advertiu na segunda-feira, em um seminário do Banco do Japão, que o tamanho do mercado global de stablecoins já ultrapassou US$ 315,9 bilhões, mas o mecanismo de operação é mais parecido com produtos de investimento como ETFs do que com moedas de verdade. O BIS afirma que, uma vez que ocorra um grande volume de resgates, isso desencadeará um efeito dominó de corrida semelhante ao verificado em 2023 no Silicon Valley Bank (Silicon Valley Bank).
Atualmente, a estrutura do mercado de stablecoins é altamente concentrada: os dois maiores emissores, Tether (USDT) e Circle (USDC), somados, respondem por cerca de 85% da participação no mercado em circulação. A capitalização de mercado do USDT já chegou a aproximadamente US$ 186 bilhões, enquanto o USDC está em cerca de US$ 78,8 bilhões. Pablo Hernández de Cos considera que esse nível de concentração reflete a importância sistêmica e, ao mesmo tempo, evidencia falhas estruturais das atuais configurações de stablecoins no que se refere a meios de pagamento. Embora as stablecoins tenham vantagens como transferências transfronteiriças rápidas e integração com contratos inteligentes, na ausência de uma estrutura internacional eficaz de supervisão, elas terão um impacto significativo na estabilidade financeira e na política monetária.
O “atrito no resgate” das stablecoins é o principal ponto de risco que o BIS mais observa. Os emissores, no mercado primário, muitas vezes estabelecem taxas ou condições de restrição; no mercado secundário, o preço também frequentemente se desvia do valor âncora de 1, fazendo com que, em períodos de estresse, a stablecoin não consiga se manter tão estável quanto as moedas fiduciárias tradicionais. Assim que o mercado mostrar sinais de uma retirada em grande escala, o emissor será forçado a vender ativos de reserva em um mercado já pressionado. Isso não apenas transmite a pressão de liquidez ao sistema bancário, como também pode reduzir o preço de ativos relacionados, gerando efeitos em cadeia nos bancos que detêm ativos semelhantes. Para reduzir esse tipo de risco, alguns tomadores de decisão estão estudando limitar o pagamento de juros por stablecoins, ou permitir que emissores que cumpram as regras se conectem a mecanismos de acesso a empréstimos do banco central ou a arranjos semelhantes a seguro de depósitos.
O avanço da regulação global ocorre de forma desigual. O presidente do FSB, e o governador do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, disseram que o processo de elaboração de regras internacionais entrou em estagnação. O projeto de lei dos EUA “CLARITY” ainda está sendo analisado no Senado, e a questão dos rendimentos de stablecoins já alcançou parcialmente um acordo, mas ainda há divergências sobre a supervisão de finanças descentralizadas (DeFi) e normas de ética profissional. O BIS destacou especialmente que, como as stablecoins são usadas em carteiras não custodiais e em blockchains públicas, uma grande parte das atividades fica fora do monitoramento tradicional de AML e CTF; a menos que, nos canais de entrada e saída de recursos (On-off ramps), sejam implementadas medidas de proteção específicas, elas tendem a se tornar ferramentas para movimentação de fundos ilegais.
Diante do cenário de aperto regulatório, países europeus estão ajustando suas estratégias ativamente. O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, incentivou a indústria bancária europeia a ampliar a emissão de stablecoins denominadas em euro, e o vice-presidente do banco central francês, Denis Beau, sugeriu revisar a regulamentação do MiCA para restringir o uso de stablecoins que não sejam da zona do euro em pagamentos do dia a dia. O UBS já iniciou no início de abril de 2026 um projeto-piloto de stablecoin em franco suíço. Do lado da demanda, o crescimento também continua: uma pesquisa da BVNK mostra que, entre 15 países, 54% dos entrevistados detiveram stablecoins no ano passado, e 56% planejam aumentar as posições; para alguns profissionais liberais e vendedores de e-commerce, os pagamentos com stablecoins já representam 35% da renda anual.
O BIS aponta que os emissores de stablecoins possuem, no mercado primário, taxas de resgate e condições de restrição; no mercado secundário, os preços também frequentemente se desviam do valor âncora de 1. Essas características se alinham mais a padrões de comportamento de ETF ou produtos de investimento do que à conversibilidade incondicional que uma moeda verdadeira deveria ter. Por isso, o BIS considera que, em sua classificação regulatória, elas ficam mais próximas de títulos.
Em geral, os emissores de stablecoins mantêm títulos do governo de curto prazo e depósitos bancários como reservas. Quando surge uma demanda de resgate em grande escala, o emissor é forçado a liquidar reservas em um mercado já sob pressão. Isso não apenas derruba o preço dos ativos relacionados, como também pode produzir efeitos em cadeia sobre bancos que detêm ativos semelhantes—de forma parecida com a corrida desencadeada em 2023 no Silicon Valley Bank, quando vendas forçadas ocorreram devido à desvalorização de ativos de títulos.
O andamento regulatório é desigual: o projeto de lei “CLARITY” dos EUA ainda está em análise no Senado, e há divergências sobre as cláusulas relacionadas a DeFi; a estrutura do MiCA na Europa enfrenta pressão por revisões para limitar stablecoins que não sejam em euros; o diretor do Banco da Inglaterra afirmou que a elaboração de regras internacionais entrou em estagnação; o UBS na Suíça já iniciou um piloto de stablecoin fiduciária; a China mantém uma proibição de stablecoins de renminbi offshore, mas o CEO da Circle prevê que a China poderá lançar produtos relacionados em 3 a 5 anos.
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