Autor: Beida Lianxie Owen Chen (X @xizhe_chan)
A participação acionária de empresas não listadas (Pre-IPO Stock) representa um volume de ativos de trilhões de dólares a nível global, mas enfrenta há muito tempo duas dificuldades estruturais: um alto limiar de entrada para participantes e uma escassez de liquidez na saída. Com a oneração de ativos do mundo real (RWA) na blockchain se tornando um foco de inovação financeira, a “tokenização de ações” é vista como uma chave para romper o impasse de liquidez no mercado de private equity. Este relatório foca na tokenização de ações de empresas não listadas (especialmente unicórnios), buscando esclarecer, por meio da análise do cenário de mercado, caminhos de implementação e desafios principais, a evolução dessa trilha desde a especulação inicial até uma infraestrutura regulada. As principais conclusões do relatório são:
1. Estado do mercado: Apesar de unicórnios avaliarem dezenas de trilhões de dólares, a escala real de implementação da tokenização no mercado é de apenas 1–2 bilhões de dólares (excluindo alguns projetos de circulação não livre, cujo volume real de circulação é de apenas dezenas de milhões). O mercado apresenta um efeito de liderança muito forte, com ativos altamente concentrados em poucos unicórnios de IA como OpenAI, SpaceX, etc. Isso indica que o setor ainda está na fase inicial de transição de “espaço narrativo” para um “mercado efetivo”, sem uma oferta de ativos em escala ou capacidade de absorção.
2. Divergência de caminhos: O setor já formou três trajetórias distintas, cuja diferença central reside no “grau de confirmação de propriedade” e na “participação da empresa alvo”:
3. Tendências e avaliações: A tokenização não gera liquidez automaticamente, pois o mercado enfrenta problemas de liquidez (mercado estreito, precificação ineficaz). O futuro do setor não está na emissão unilateral, mas na colaboração com as empresas:
Palavras-chave: Tokenização de ações de Pre-IPO, RWA, arquitetura SPV, TaaS (Tokenization as a Service), Transfer Agent (Agente de Transferência)
A participação acionária de empresas não listadas, especialmente unicórnios em rápido crescimento, constitui um segmento de ativos de importância na economia global.[1] Contudo, há muito tempo, o acesso ao investimento e os principais ganhos de valor são dominados por instituições profissionais como PE/VC e por um pequeno grupo de investidores de alta renda, dificultando o acesso de investidores comuns. Com a maturidade crescente da tecnologia blockchain, a “tokenização de ações” começa a se tornar viável — mapeando ações por meio de tokens digitais na cadeia, melhorando a eficiência de circulação de ativos privados dentro de limites regulatórios. A consultoria Boston Consulting Group (BCG) estima que, até 2030, o mercado de RWA na cadeia poderá atingir US$ 16 trilhões.[2] Isso reflete uma alta atenção do mercado para a direção da tokenização: por um lado, pelo enorme valor dos principais unicórnios; por outro, pela esperança de que a tecnologia de tokenização reduza barreiras tradicionais e atritos nas transações financeiras.
Diante desse contexto, este documento sistematiza o cenário de mercado e o estado atual da tokenização de ações de empresas não listadas, analisa os pontos problemáticos tradicionais, as vantagens mecânicas da tokenização, além de casos principais, aspectos tecnológicos, regulatórios e desafios, e faz uma avaliação do futuro.
O foco do relatório está na ponta empresarial — na tokenização do patrimônio subjacente de empresas não listadas (especialmente unicórnios), ou seja, na “tokenização direta de ações de empresas alvo”, e não na tokenização de cotas de fundos de private equity (PE Fund) no sentido tradicional.
Isso porque: a discussão sobre “tokenização de fundos de PE” geralmente parte do lado do investimento, usando quadros tradicionais de finanças para cálculos e análises, o que tende a negligenciar a maior parte da estrutura acionária de unicórnios — como ações de fundadores e planos de participação de funcionários (ESOP). Essa omissão pode distorcer a avaliação do alcance de cobertura e das necessidades reais de liquidez, subestimando o potencial e a escalabilidade do mercado.
Data limite: A pesquisa considera até 27/12/2025.
Dados utilizados: Como a avaliação de ações não listadas carece de uma referência oficial única, parte do volume de mercado e valor de mercado de tokens é estimada com base em dados públicos e plataformas acessíveis.
Liquidez de ações: Como ações não listadas possuem restrições de bloqueio, transferência e gestão de registros de acionistas, há dificuldades na implementação de tokenização, levando a distinguir entre “tokenização teórica (total)” e “tokenização negociável (restrita)”.
Moedas e câmbio: Como há múltiplas moedas de avaliação, o relatório apresenta tudo em dólares, com câmbio estimado com base na âncora de stablecoins em dólar, sem explorar cenários extremos de descolamento cambial.
Produtos especiais: Para contratos sintéticos em plataformas como Bybit, Hyperliquid, a métrica considerada é o Open Interest (OI), não sendo incluída no cálculo do valor de mercado de ações tokenizadas.
A definição ampla de participação acionária de empresas não listadas cobre todas as ações não negociadas em bolsas públicas, com alta diversidade de tipos: desde startups iniciais até grandes grupos privados maduros. Os detentores não se limitam a fundos institucionais, incluindo: fundadores, funcionários com ações ou opções de ações (ESOP), investidores-anjo, VC/PE, investidores estratégicos e diversos adquirentes secundários.
Tabela 1: Estrutura comum de detentores de ações não listadas

Fonte: Pesquisa PKUBA
Fora investidores estratégicos e alguns fundadores, os demais grupos de detentores geralmente têm diferentes níveis de demanda por liquidez: instituições focam na eficiência de saída; funcionários, ao saírem ou planejarem sua saída financeira, precisam de liquidez realizável. Contudo, sob mecanismos tradicionais, além de recompra de ações, a circulação secundária é pouco eficiente, tornando a “dificuldade de saída” uma dificuldade estrutural de longa data.
Primeiro, é importante destacar que, por falta de uma avaliação oficial única de ações não listadas, esta seção baseia-se em dados de principais instituições, inferindo a escala a partir de duas dimensões: “capacidade de alocação de capital” e “volume de avaliação de ativos”.
Tabela 2: Indicadores principais do mercado privado global e avaliação de unicórnios

Fontes: Hurun, McKinsey, Preqin
Segundo os dados, na dimensão de “capacidade de alocação de capital”, PE e VC gerenciam aproximadamente US$ 8,9 trilhões (5,8T + 3,1T), formando uma base de capital importante para ativos de participação privada;
Na dimensão de “volume de avaliação de ativos”, apenas o grupo de unicórnios já atinge trilhões de dólares. Segundo o Hurun Research Institute[3], até meados de 2025, esse valor chega a US$ 5,6 trilhões. Além disso, a CB Insights estima que, até julho de 2025, 1.289 unicórnios acumulam avaliação superior a US$ 4,8 trilhões.[4]
Tabela 3: Top 10 unicórnios por avaliação global

Fonte: CB Insights (até dezembro de 2025)
É importante destacar que, seja US$ 4,8 trilhões ou US$ 5,6 trilhões, esses valores representam apenas a ponta da pirâmide, ou seja, algumas milhares de empresas líderes; o enorme valor de dezenas de milhares de empresas privadas maduras e em crescimento, fora do nível de unicórnio, ainda não está contabilizado.
De modo geral, o mercado global de private equity tem um valor total muito superior a dezenas de trilhões de dólares. Essa escala, impressionante e com baixa liquidez, oferece um potencial de aplicação para a tokenização bastante promissor.
A participação acionária de empresas não listadas mantém há muito tempo um volume elevado de valor e baixa liquidez simultaneamente, devido às restrições institucionais e de mercado na participação e na saída. Assim, o valor potencial da tokenização reside principalmente em três aspectos: canais de circulação, descoberta de preços e canais de captação de recursos.
A estrutura de alta avaliação e baixa liquidez de ações não listadas tem origem em duas restrições simultâneas: regras de acesso e barreiras de saída. Por um lado, regras de entrada e limites de capital restringem o alcance de investidores; por outro, a saída depende de eventos finais e de uma circulação secundária ineficiente, dificultando a liquidez.
Em comparação com a “tokenização de ações listadas”, que visa principalmente melhorar o tempo e o canal de negociação, a tokenização de ações não listadas funciona mais como uma reestruturação do mercado de private equity, com três ganhos centrais:
Primeiro, canais de circulação: a tokenização, ao oferecer liquidez secundária contínua, reduz o impasse de cercadura, criando canais bidirecionais para participação e saída.
Figura 1: Resumo das rotas de saída do mercado primário

Fonte: Pesquisa PKUBA
Segundo, descoberta de preços: a introdução de sinais de preço mais contínuos por meio da tokenização melhora a precificação de captação e a gestão de valor de mercado. A avaliação tradicional de ações não listadas é baseada principalmente em rodadas de financiamento, com baixa frequência e transparência, e os sinais de avaliação muitas vezes atrasam as mudanças de mercado e de gestão. Com a tokenização, a realização de negociações secundárias mais contínuas fornece sinais de preço mais frequentes, ajudando a reduzir desvios entre avaliações primárias e secundárias, além de oferecer uma referência “quase de mercado aberto” para precificação de futuras captações e gestão de valor.
Terceiro, captação de recursos: a tokenização abre canais de financiamento incremental, podendo explorar novos modelos como STO e “listagem digital”. Além de facilitar a circulação de ativos existentes, a tokenização pode se tornar uma ferramenta de captação adicional. Algumas empresas podem emitir tokens de valores mobiliários (STO) para acessar pools de capital digitais globais, reduzindo ciclos e custos de IPO tradicionais, e oferecendo novas opções de estrutura de capital. Plataformas como Opening Bell também exploram caminhos de “listagem digital”, mas a escala de implementação de empresas não listadas ainda requer mais casos de validação.
Como algumas plataformas não divulgam valor de mercado e contratos sintéticos usam volume de posições abertas (OI), a estimativa aqui é baseada em dados do CoinGecko e sites dos projetos.
Tabela 4: Principais projetos de tokenização de ações não listadas (não exaustiva)

Fontes: CoinGecko, sites dos projetos, até 27/12/2025
Com base nesses exemplos, conclui-se que o mercado de tokenização de ações não listadas ainda está na fase inicial de validação. Pelos dados disponíveis, a escala geral do setor está na faixa de US$ 10–20 milhões, excluindo projetos de circulação não livre como Securitize (CURZ) e Archax (MGL), cujo volume de circulação livre é de dezenas de milhões de dólares.
Isso indica que, apesar do grande espaço narrativo, a liquidez secundária, profundidade de negociação e alcance de participação ainda são limitados, mais parecendo uma fase de educação e validação de poucos casos.
Na distribuição dos ativos subjacentes, além de alguns casos especiais, há uma forte concentração em unicórnios de tecnologia dos EUA, especialmente ativos relacionados à IA (OpenAI, SpaceX, xAI, etc.).
Essa preferência se explica pelo fato de, na fase inicial, os projetos priorizarem ativos de alta notoriedade, forte narrativa e atenção concentrada, para reduzir custos de educação e impulsionar o fluxo de transações, iniciando o produto e validando o mercado. Apesar de alguns projetos alegarem contato com unicórnios chineses, até o momento não há casos públicos de implementação, indicando que a obtenção de ativos, limites regulatórios e estruturas de negociação ainda não possuem um caminho replicável.
Para transformar participação acionária de empresas não listadas em ativos negociáveis na cadeia, basicamente existem três modelos, que diferem principalmente em: se há posse real de ações, participação da empresa, se o token representa direitos de acionista, e as licenças regulatórias.
Tabela 5: Comparativo dos modelos de tokenização de ações não listadas

Fonte: Pesquisa Pharos
Os ativos sintéticos geralmente não envolvem permissão da empresa alvo nem posse de ações subjacentes, mas criam contratos que rastreiam avaliações, oferecendo exposição econômica ao ativo. Os investidores não entram na lista de acionistas, não têm direitos de governança ou dividendos, e seus retornos dependem de cláusulas contratuais e mecanismos de liquidação, sendo mais próximos de derivativos sintéticos.
Vantagens: rápida implementação, flexibilidade estrutural, menor dependência de aquisição de ativos; riscos: risco de contraparte, erro de rastreamento, risco de liquidação, incerteza regulatória. Essa abordagem atende mais às necessidades de traders e especuladores Web3, não sendo equivalente à ação real na cadeia. Exemplos incluem dívidas (Republic) e contratos perpétuos de avaliação (Ventuals, Hyperliquid).
Figura 2: Whitepaper da Ventuals sobre tokenização de ações

Fonte: Documentação oficial Ventuals
O modelo SPV consiste em criar uma entidade offshore que detém ações da empresa, e tokenizar os direitos dessa entidade, sem tocar na lista de acionistas da empresa. Assim, o investidor não é acionista direto nem possui direitos de governança.
Figura 3: Estrutura de emissão via SPV

Fonte: Pesquisa Pharos
Vantagens: maior flexibilidade; riscos: baixa transparência (investidores só verificam se o SPV detém ações, não detalhes financeiros ou operacionais), além de riscos legais se a empresa entender que há violação de cláusulas de transferência ou de direitos de acionistas. Caso a empresa identifique violação, pode acionar medidas legais e regulatórias.
O modelo nativo requer participação direta da empresa, que fornece TaaS (Tokenization as a Service). A chave é que a empresa deve ter licença de Transfer Agent (agente de transferência) registrada na SEC, que gerencia o registro de acionistas e garante a correspondência legal entre tokens e ações físicas. Assim, o token na cadeia representa direitos reais, incluindo voto, dividendos e acesso à informação, com maior segurança jurídica.
Porém, esse caminho tem custos elevados: envolve conformidade regulatória, licenças de corretoras e plataformas de negociação, além de necessidade de cooperação da empresa. Atualmente, a maioria das implementações ocorre com empresas listadas, enquanto a tokenização de empresas não listadas ainda está em fase de testes e desenvolvimento.
Centrifuge, por exemplo, anunciou em novembro de 2025 uma iniciativa de tokenização de ações de empresas não listadas, usando uma arquitetura de conformidade baseada em Transfer Agents, que promete uma solução escalável e legalmente sólida.
Figura 4: Centrifuge na tokenização de ações não listadas

Fonte: Site Centrifuge
Com base nos modelos anteriores, os casos reais diferem em conformidade e infraestrutura. Este capítulo analisa exemplos específicos e compara seus processos e resultados.
Os ativos sintéticos não possuem ações subjacentes, mas criam contratos que rastreiam avaliações, usando plataformas de contratos perpétuos (Perps DEX) ou dívidas tokenizadas. Exemplos: Ventuals (Hyperliquid) e Republic (Mirror Tokens). Ambos não representam ações reais, mas oferecem exposição econômica, com diferenças em conformidade e mecanismo de negociação.
Tabela 6: Comparativo de três formas de ativos sintéticos

Fonte: Pesquisa PKUBA
A diferenciação de mercado: Republic é mais alinhado à conformidade e ao quadro financeiro tradicional, com licença de corretora e regras de divulgação; Perps DEX é mais próximo do mercado nativo, com foco na negociação, alavancagem e liquidez contínua, sem reconhecimento legal de propriedade.
Figura 5: Exemplo de produto de contrato pré-IPO na plataforma Ventuals

Fonte: Site Ventuals
A liquidez: plataformas como Hyperliquid, com contratos perpétuos, apresentam maior volume de negociação diário, atingindo milhões de dólares, enquanto SPVs indiretos têm menor profundidade (ver gráfico 13). Isso ocorre porque ativos sintéticos, especialmente Perps, atendem ao perfil de fundos de criptomoedas: alta frequência, alavancagem, atraindo especuladores e usuários de trading, formando volume e educando o mercado.
Gráfico 6: Volume diário de negociação de ativos pré-IPO na Hyperliquid (USD)

Fonte: Dune Analytics
A análise indica que ativos sintéticos não substituem ações reais na cadeia, mas podem atuar na fase inicial de demanda e liquidez, formando uma base de mercado que apoiará futuras tokenizações mais reguladas e com confirmação de propriedade.
O modelo SPV consiste em criar uma entidade offshore que detém ações, e tokenizar seus direitos, sem tocar na lista de acionistas da empresa. Assim, oferece exposição econômica ao ativo, com maior flexibilidade, mas também maior controvérsia regulatória e de governança.
Vantagens: implementação rápida, potencial de escala; riscos: baixa transparência, dificuldades de validação de propriedade, riscos legais se a empresa entender que há violação de cláusulas de transferência ou de direitos de acionistas. Além disso, há riscos de conformidade se a tokenização for considerada violação de regras de transferência ou de direitos de acionistas, podendo gerar ações legais ou regulatórias.
O caminho nativo exige que a empresa seja regulada, com licença de Transfer Agent, e que ofereça um serviço completo de tokenização, incluindo emissão, registro, gestão de detentores e negociação secundária. Essa abordagem garante maior segurança jurídica, mas tem custos elevados e maior complexidade operacional.
Centrifuge, por exemplo, anunciou em novembro de 2025 uma iniciativa de tokenização de ações de empresas não listadas, usando uma arquitetura de conformidade baseada em Transfer Agents, que promete uma solução escalável e legalmente sólida.
Figura 8: Arquitetura de tokenização de ações na Centrifuge

Fonte: Site Centrifuge
Apesar do potencial, o setor enfrenta obstáculos rígidos que limitam sua expansão, divididos em três categorias principais: conformidade regulatória, profundidade de liquidez e conexão com IPO.
A tokenização de ações não listadas é mais complexa que a de ações listadas, pois enfrenta tanto a supervisão regulatória (SEC) quanto restrições jurídicas internas às empresas. Além disso, cláusulas de restrição de transferência (Transfer Restrictions) em acordos de acionistas podem impedir ou limitar a tokenização, levando a riscos legais e regulatórios.




