26 de janeiro, notícias, a Deloitte em seu Relatório de Perspectivas do Mercado Financeiro 2026 emitiu um alerta contundente: à medida que a liquidação T+0 e a tokenização de ativos aceleram a implementação, o sistema financeiro global pode estar a evoluir para uma fase de “mais rápido, mas mais opaco”, e se a regulamentação e a infraestrutura não forem atualizadas de forma sincronizada, a manipulação de mercado e os riscos sistêmicos serão mais difíceis de detectar e conter.
Liquidação T+0, refere-se à conclusão da transação no mesmo dia, com a entrega de fundos e ativos, sendo vista como uma próxima atualização crucial de Wall Street. A Deloitte aponta que essa mudança está altamente relacionada com ativos baseados em blockchain, stablecoins e valores mobiliários tokenizados, pois somente em um ambiente de liquidação instantânea, as vantagens dos ativos digitalizados podem realmente se manifestar. Assim que ativos do mundo real, como títulos e ações, circularem em forma de tokens, os processos de transação serão comprimidos, os custos de liquidação e reconciliação diminuirão significativamente, e a eficiência do giro de capital aumentará.
No entanto, a Deloitte também destaca que o sistema financeiro atual ainda depende de ciclos de liquidação, processos de reconciliação e relatórios regulatórios. Uma vez que a velocidade de liquidação seja drasticamente reduzida, o tempo disponível para correções, adição de garantias e detecção de anomalias também será reduzido, o que pode concentrar riscos operacionais e choques de liquidez.
Executivos da Deloitte, Roy Ben-Hur e Megan Burns, afirmam que a tokenização não irá transformar o mercado global da noite para o dia, mas avançará gradualmente por meio de pilotos em pequena escala. Essa abordagem permite testar a tecnologia e verificar possíveis atritos regulatórios, mas também significa que, por um período considerável, o mesmo ativo coexistirá em versões tokenizadas e tradicionais. O mercado precisará decidir qual versão possui maior liquidez e qual preço é mais confiável, o que por si só pode gerar novos fatores de instabilidade.
Mais importante ainda, a liquidação T+0 mudará completamente a forma de operação de garantias e liquidez. No passado, as instituições podiam usar atrasos na liquidação para ajustar caixa e títulos, mas em um ambiente em tempo real, essa margem de manobra será comprimida. A Deloitte acredita que esse será o cenário mais provável para a implementação inicial de stablecoins e garantias tokenizadas, pois elas podem oferecer instrumentos de liquidação vinculados ao dólar, com rápida circulação. Autoridades regulatórias nos EUA estão explorando essa direção, buscando melhorar a eficiência na gestão de garantias por meio de blockchain.
Por outro lado, a Deloitte alerta que, ao relaxar alguns requisitos de relatórios e processos para incentivar a inovação, os reguladores podem criar novas “zonas cegas”. Uma liquidação mais rápida, combinada com menor divulgação de informações, pode enfraquecer a capacidade do mercado de detectar manipulações, verificar discrepâncias e identificar pressões de mercado. Essa combinação, em cenários extremos, pode ampliar riscos sistêmicos.
Ben-Hur e Burns apontam que as autoridades regulatórias dos EUA já começaram a usar instrumentos como cartas de não-ação para aprovar pilotos de tokenização. Essa abordagem pode acelerar a evolução do mercado, mas também implica que algumas novas regras possam ser implementadas antes de um quadro regulatório completo. Quando a liquidez for atraída para ambientes de transações blockchain mais rápidos, os mecanismos tradicionais de descoberta de preços podem ser marginalizados.
A conclusão da Deloitte é bastante clara: a tokenização e a liquidação T+0 não são conceitos de marketing, mas um teste de resistência na infraestrutura. Se os ativos baseados em blockchain puderem melhorar a certeza de liquidação e a eficiência de garantias sem sacrificar a transparência, eles se tornarão parte do sistema financeiro mainstream após 2026; caso contrário, o aumento da fragmentação e da assimetria de informações levará a uma rápida intensificação da regulamentação. A liquidação T+0 é a chave central para determinar se essa atualização financeira poderá realmente acontecer.