O milagre da Líbia para o Irã: o país fica sem eletricidade, mas as mineradoras de Bitcoin continuam a funcionar

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Em Irã e Líbia, dois países devastados por sanções e guerras civis, a eletricidade deixou de ser apenas um serviço público e passou a ser uma moeda forte que pode ser “exportada financeiramente”. Quando hospitais entram em escuridão devido a cortes de energia, as mineradoras de Bitcoin continuam operando sem interrupções; este jogo de arbitragem energética revela o absurdo e o desequilíbrio na distribuição de recursos. Este artigo é uma adaptação de um texto do Revelações na Blockchain, organizado, traduzido e escrito pela Foresight News.
(Resumindo: o Banco Central do Irã acumulou clandestinamente US$ 500 milhões em USDT no ano passado! Revelado que foi usado para estabilizar a taxa de câmbio do rial e enfrentar sanções internacionais)
(Complemento: Noite de pânico em ativos de risco, sob quais condições os EUA poderiam declarar guerra ao Irã?)

Índice do artigo

  • Capítulo 1: Escassez de energia: quando a energia vira ferramenta financeira
  • Capítulo 2: Dois países, duas histórias de mineração
    • Irã: de “exportar energia” a “exportar poder de processamento”
    • Líbia: eletricidade barata, mineração clandestina
  • Capítulo 3: Redes elétricas em colapso e privatização da energia
    • Indústria emergente ou pilhagem de recursos?
  • Epílogo: o custo real de um Bitcoin

Em dois países devastados por sanções e guerras civis, a eletricidade deixou de ser apenas um serviço público e passou a ser uma moeda forte que pode ser “exportada financeiramente”.

No verão de Teerã, ondas de calor como uma rede sem ventilação deixam as pessoas quase sem ar.

Nos repetidos episódios de crise energética dos últimos anos, o verão de 2025 foi o momento mais difícil para a capital iraniana; naquele ano, a cidade enfrentou uma das temperaturas mais extremas em meio século, ultrapassando várias vezes os 40°C, 27 províncias tiveram restrições de energia, e vários escritórios governamentais e escolas fecharam. Em vários hospitais locais, médicos tiveram que depender de geradores a diesel para manter a energia — se a falta de energia durasse demais, os respiradores nas unidades de terapia intensiva poderiam parar de funcionar.

Mas na periferia da cidade, atrás de muros, uma voz mais aguda se faz ouvir: ventiladores industriais rugem ensurdecedores, filas de mineradoras de Bitcoin operam em plena carga; dezenas de luzes LED piscam como um mar de estrelas na escuridão, e a energia aqui quase nunca se esgota.

Do outro lado do Mediterrâneo, na Líbia, o mesmo cenário se repete diariamente. Os moradores do leste já estão acostumados a cortes de energia de 6 a 8 horas por dia; alimentos no frigorífico frequentemente estragam, crianças precisam fazer tarefas à luz de velas. Mas fora da cidade, em fábricas de aço abandonadas, mineradoras ilegais operam dia e noite, transformando a energia quase gratuita do país em Bitcoin, que depois é trocado por dólares em exchanges de criptomoedas.

Esta é uma das histórias mais absurdas de energia do século XXI: em dois países devastados por sanções e guerras civis, a eletricidade deixou de ser apenas um serviço público e passou a ser uma moeda forte que pode ser “exportada”.

Descrição da imagem: Dois homens iranianos sentados na frente de uma loja de celulares, com apenas uma luz de emergência acesa, devido a um corte de energia que deixou a rua completamente às escuras.

Capítulo 1: Escassez de energia: quando a energia vira ferramenta financeira

A mineração de Bitcoin é essencialmente um jogo de arbitragem energética. Em qualquer lugar do mundo, se a energia for barata o suficiente, a mineração é lucrativa. Nos Estados Unidos, no Texas, ou na Islândia, os operadores calculam cuidadosamente o custo de cada kWh; apenas os equipamentos mais eficientes podem sobreviver na competição. Mas em Irã e Líbia, as regras são completamente diferentes.

A tarifa industrial de energia no Irã chega a US$ 0,01 por kWh, e na Líbia é ainda mais absurda — cerca de US$ 0,004 por kWh, uma das mais baixas do mundo. Essa tarifa tão baixa é possível graças a subsídios governamentais massivos para combustíveis, que artificialmente reduzem o preço da energia. Em um mercado normal, esse preço sequer cobre o custo de geração.

Mas para os mineradores, isso é o paraíso. Mesmo mineradoras antigas, vindas da China ou do Cazaquistão — equipamentos considerados lixo eletrônico em países desenvolvidos — continuam lucrando facilmente aqui. Dados oficiais indicam que, em 2021, a Líbia chegou a representar cerca de 0,6% do poder de hashing global do Bitcoin, superando todos os outros países árabes e africanos, e até alguns países europeus.

Embora esse número pareça pequeno, na realidade, é absurdo para um país com apenas 7 milhões de habitantes, uma rede elétrica com 40% de perdas, e cortes de energia rotativos diários. No pico, a mineração de Bitcoin consumiu cerca de 2% da geração total do país, aproximadamente 0,855 TWh por ano.

No Irã, a situação é ainda mais extrema. Com a quarta maior reserva de petróleo do mundo e a segunda maior de gás natural, o país teoricamente não deveria sofrer com falta de energia. Mas sanções americanas cortaram o acesso a equipamentos avançados de geração, e a rede envelhecida e mal gerenciada mantém o fornecimento de energia sob tensão constante. A explosão na mineração de Bitcoin está rompendo essa corda.

Não se trata apenas de expansão industrial. É uma fuga de recursos públicos — quando a energia é tratada como uma “moeda forte” que pode escapar do sistema financeiro, ela deixa de ser prioridade para hospitais, escolas e residências, e passa a alimentar mineradoras que podem convertê-la em dólares.

Capítulo 2: Dois países, duas histórias de mineração

Irã: de “exportar energia” a “exportar poder de processamento”

Sob forte pressão de sanções extremas, o Irã legalizou a mineração de Bitcoin, transformando sua energia barata em ativos digitais de circulação global.

Em 2018, o governo de Trump saiu do acordo nuclear com o Irã, impondo sanções severas. O país foi excluído do sistema SWIFT, incapaz de usar o dólar para comércio internacional, suas exportações de petróleo caíram drasticamente, e suas reservas cambiais se esgotaram. Nesse contexto, a mineração de Bitcoin surgiu como uma saída: não precisa de SWIFT, nem de bancos, apenas de energia, mineradoras e uma rede para vender as moedas.

Em 2019, o governo iraniano oficializou a mineração de criptomoedas como uma indústria legal, criando um sistema de licenças. A política parece moderna: mineradores podem solicitar licenças para operar com tarifas reduzidas, mas devem vender as Bitcoins ao Banco Central do Irã.

Teoricamente, é uma solução ganha-ganha — o país troca energia barata por Bitcoin, que por sua vez pode ser convertido em moeda estrangeira ou importações; os mineradores obtêm lucros estáveis; e a rede elétrica pode ser planejada e regulada.

Porém, a realidade logo se desviou: muitas licenças foram emitidas, mas a ilegalidade se espalhou.

Até 2021, o então presidente Rouhani admitiu publicamente que cerca de 85% das atividades de mineração no Irã eram não autorizadas; fábricas clandestinas surgiram como cogumelos após a chuva, desde fábricas abandonadas até porões de mesquitas, de prédios governamentais a residências comuns. Quanto mais subsídios, maior o incentivo à arbitragem; quanto mais frouxos os controles, mais o furto de energia se torna uma “benefício tácito”.

Diante da crise energética e do consumo ilegal que ultrapassa 2 GW, o governo iraniano anunciou uma proibição temporária de mineração de criptomoedas de maio a setembro daquele ano, por quatro meses — a mais severa desde a legalização, uma espécie de lockdown nacional.

Durante esse período, o governo realizou operações em grande escala: o Ministério de Energia, a polícia e autoridades locais invadiram milhares de fazendas ilegais, confiscando dezenas de milhares de mineradoras na segunda metade de 2021.

Porém, após o fim da proibição, a mineração voltou a crescer rapidamente. Muitas máquinas apreendidas foram reativadas, e as fazendas clandestinas aumentaram de tamanho. Essa “limpeza” foi vista por muitos como uma encenação temporária: de fachada, combate ao ilegal; na prática, não resolveu os problemas estruturais, e alguns mineradores com conexões aproveitaram para expandir.

Mais ainda, investigações e reportagens indicam que entidades próximas ao poder têm grande participação nesse setor, formando “fazendas privilegiadas” com fornecimento de energia independente e imunidade legal.

Quando por trás das fazendas há “mãos intocáveis”, a suposta “limpeza” vira uma encenação política; e a narrativa popular é mais dura: “Suportamos a escuridão só para manter as mineradoras funcionando.”

Fonte: Financial Times

Líbia: eletricidade barata, mineração clandestina

Inscrições nas paredes das ruas da Líbia condenam “a compra e venda de bens de socorro como atividade ilegal”, refletindo a indignação social pela má distribuição de recursos — uma emoção que também se intensifica com o desvio de subsídios de energia para mineração ilegal.

A história da mineração na Líbia é mais parecida com uma “selvagem expansão na ausência de um Estado”.

Este país do Norte da África (com cerca de 7,3 a 7,5 milhões de habitantes, e uma área de quase 1,76 milhão de km², a quarta maior da África) fica na costa do Mediterrâneo, fazendo fronteira com Egito, Tunísia e Argélia. Desde a queda do regime de Gaddafi em 2011, o país vive uma longa fase de instabilidade: guerras civis recorrentes, grupos armados diversos, fragmentação das instituições — uma espécie de “fragmentação administrativa” (com violência relativamente controlada, mas sem uma governança unificada).

O que realmente impulsiona a Líbia a se tornar um campo de mineração é sua estrutura absurda de tarifas de energia. Como um dos maiores produtores de petróleo da África, o governo subsidia massivamente a energia, mantendo o preço em cerca de US$ 0,0040 por kWh — abaixo até do custo de geração. Em um país normal, esse subsídio visa garantir o bem-estar da população. Mas na Líbia, virou uma grande oportunidade de arbitragem.

Assim, surge um modelo clássico de arbitragem:

  • Máquinas antigas, já descartadas em países desenvolvidos, ainda lucram na Líbia;
  • Áreas industriais, fábricas abandonadas e armazéns são ideais para esconder cargas de alta potência;
  • Importações de equipamentos são restritas, mas canais paralelos e contrabando continuam permitindo a entrada de máquinas.

Apesar de o Banco Central da Líbia (CBL) ter declarado, em 2018, que transações com criptomoedas eram ilegais, e de o Ministério da Economia ter proibido a importação de mineradoras em 2022, a mineração em si ainda não é explicitamente proibida por lei nacional. A aplicação da lei depende de acusações de “uso ilegal de energia” ou “contrabando”, e, na prática, a fragmentação do poder impede uma repressão eficaz, ampliando a zona cinzenta.

Esse estado de “proibição sem fim” é uma manifestação típica da fragmentação de poder — o Banco Central e o Ministério da Economia muitas vezes não conseguem aplicar as ordens em Trípoli ou no sul, e grupos armados ou milícias às vezes toleram ou protegem as fazendas de mineração, permitindo que ela cresça na zona cinzenta.

Fonte: @emad_badi no X

Ainda mais absurdo é que muitas dessas fazendas são operadas por estrangeiros. Em novembro de 2025, o procurador da Líbia condenou a três anos de prisão nove pessoas que operavam fazendas de mineração na siderúrgica de Zlitan, confiscando os equipamentos e recuperando os lucros ilegais. Em várias operações anteriores, dezenas de cidadãos asiáticos foram presos, operando fazendas industriais com máquinas antigas vindas da China ou do Cazaquistão.

Esses equipamentos, já sem lucratividade em países desenvolvidos, continuam gerando dinheiro na Líbia, graças ao preço de energia extremamente baixo. Mesmo as máquinas mais ineficientes podem lucrar aqui. Por isso, a Líbia virou o cemitério global de mineradoras — os resíduos eletrônicos descartados no Texas ou na Islândia ganham uma segunda vida aqui.

Capítulo 3: Redes elétricas em colapso e privatização da energia

Irã e Líbia seguiram caminhos diferentes: um tentou integrar a mineração de Bitcoin ao aparato estatal, o outro deixou que ela operasse na sombra do sistema. Mas o resultado é o mesmo — déficits na rede elétrica e consequências políticas na distribuição de recursos.

Não se trata apenas de uma falha técnica, mas de uma consequência da economia política. Subsídios criaram a ilusão de que “energia não tem valor”; a mineração oferece a tentação de “transformar energia em dinheiro”; e a estrutura de poder decide quem pode aproveitar essa tentação.

Quando mineradoras, hospitais, fábricas e residências compartilham a mesma rede, o conflito deixa de ser abstrato. Cortes de energia não prejudicam apenas geladeiras e ar-condicionado, mas também salas de cirurgia, bancos de sangue e linhas de produção industrial. Cada escurecimento é uma silenciosa reflexão sobre a forma de distribuição de recursos públicos.

O problema é que os lucros da mineração são altamente “transportáveis”. A energia é local, seu custo é social; o Bitcoin é global, seu valor pode ser transferido rapidamente. Resultado: uma estrutura assimétrica — a sociedade paga pelo consumo e pelos cortes, enquanto poucos capturam lucros que podem atravessar fronteiras.

Em países com instituições sólidas e energia abundante, a mineração costuma ser vista como uma atividade industrial; mas em países como Irã e Líbia, a questão é diferente.

Indústria emergente ou pilhagem de recursos?

Globalmente, a mineração de Bitcoin é vista como uma nova indústria, símbolo da “economia digital”. Mas nos casos do Irã e da Líbia, ela parece mais uma experiência de privatização de recursos públicos.

Se fosse uma indústria, deveria gerar empregos, pagar impostos, ser regulada e trazer benefícios sociais. Mas, nesses países, a mineração é altamente automatizada, quase sem emprego; muitas fazendas operam na ilegalidade ou na semi-legalidade, com pouca transparência nos lucros.

A eletricidade barata foi criada para garantir o bem-estar social. No Irã, subsídios energéticos fazem parte do “contrato social” desde a Revolução Islâmica — o governo usa receitas do petróleo para subsidiar tarifas, enquanto a população aceita um regime autoritário. Na Líbia, o subsídio de energia também é uma herança do regime de Gaddafi.

Mas quando esses subsídios são usados para mineração de Bitcoin, sua natureza muda radicalmente. A energia deixa de ser um serviço público e passa a ser um insumo para gerar riqueza privada. A população comum não se beneficia, pelo contrário — paga o preço com mais cortes, custos maiores de geradores a diesel e serviços de saúde e educação mais frágeis.

Mais ainda, a mineração não traz receita cambial real para esses países. Teoricamente, o Irã exige que os mineradores vendam suas Bitcoins ao banco central, mas a implementação é duvidosa. Na Líbia, não há mecanismo oficial; a maior parte do Bitcoin é trocada no exterior por dólares ou outras moedas, por canais clandestinos ou exchanges. Esses recursos não entram nas finanças públicas, nem retornam à economia real, permanecendo como riqueza privada de poucos.

Sob esse ponto de vista, a mineração de Bitcoin é uma espécie de “maldição dos recursos” moderna: não gera riqueza por inovação ou produção, mas por distorções de preço e brechas institucionais, às custas dos grupos mais vulneráveis.

Epílogo: o custo real de um Bitcoin

Num mundo cada vez mais escasso de recursos, a eletricidade deixou de ser apenas uma ferramenta para iluminar a escuridão, e passou a ser uma mercadoria que pode ser negociada, roubada ou explorada. Quando um país trata a energia como uma “moeda forte” para exportar, na prática está consumindo o futuro que deveria ser dedicado ao bem-estar e ao desenvolvimento.

O problema não está no Bitcoin em si, mas em quem detém o poder de distribuir recursos públicos. Quando esse poder é desregulado, o que chamamos de “indústria” vira apenas mais uma forma de pilhagem.

E aqueles que permanecem na escuridão continuam esperando que a luz volte.

“Nem tudo que podemos mudar, deve ser mudado — mas, antes de tentar mudar, nada pode ser mudado.”

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