24 de fevereiro de 2026, às 13h00, Las Vegas, Michael Saylor subirá ao palco da conferência empresarial de Bitcoin.
Já é a sua incontável vez a falar sobre Bitcoin. Nos últimos cinco anos, ele esteve em inúmeros eventos semelhantes, usando a mesma paixão para dizer ao mundo: Bitcoin é ouro digital, as empresas devem colocá-lo no balanço patrimonial.
Mas desta vez, é diferente.
O nome da conferência mudou de “MicroStrategy World” para “Strategy World”. O cargo de Saylor passou de CEO para presidente executivo. E o tema principal da palestra mudou de “por que comprar Bitcoin” para três palavras desconhecidas: capital digital, crédito digital, participação digital.
Se você ainda está na impressão de que “Saylor só está fazendo hype”, pode estar perdendo uma mudança que está acontecendo.
Fonte: CCN.com
De “comprar moedas” para “emitir dívida”: o roteiro de Saylor mudou
Nos últimos cinco anos, o roteiro de Saylor foi simples: emitir ações, emitir bonds conversíveis, usar o dinheiro para comprar Bitcoin. O preço das ações da MicroStrategy virou um ETF alavancado de Bitcoin, subindo mais que a própria moeda, caindo mais que ela. Essa estratégia foi imitada por muitos e também questionada por outros.
Mas em 2025, as coisas mudaram.
Um relatório anual sobre adoção de Bitcoin por empresas mostrou que, no ano passado, o que realmente importou não foi “quais empresas compraram Bitcoin”, mas “quais aprenderam a financiar-se com Bitcoin”. Emissão de ATM, ofertas privadas, bonds conversíveis, ações preferenciais — essas ferramentas do mercado de capitais foram transformadas por um grupo de empresas com tesourarias de Bitcoin em uma linha de produção.
Saylor, em uma conversa em janeiro, foi direto: o Bitcoin está evoluindo para um capital digital que sustenta o crédito digital, “o impulso vem do crédito, não do preço”.
Em linguagem simples, isso significa: pare de focar só na linha de preço, o verdadeiro campo de batalha é o mercado de crédito.
O que é exatamente o crédito digital
Se você consultar a agenda do Strategy World 2026, verá uma seção chamada “Risco, retorno e papel dos produtos de crédito de Bitcoin na carteira de investimentos”. O foco não é se o Bitcoin vai subir ou cair, mas como precificar e alocar ferramentas baseadas em Bitcoin, como ações preferenciais e bonds conversíveis, na carteira.
Em 2025, esses produtos financeiros que Saylor chama de “crédito digital” cresceram de zero para dezenas de bilhões de dólares de mercado, pagando cerca de 370 milhões de dólares em dividendos até o final do ano. A própria Strategy lançou várias séries de ações preferenciais: STRK, STRF, STRD, STRC, STRE. Cada uma com termos, prazos e níveis de risco diferentes.
O que isso significa?
Significa que uma empresa com tesouraria de Bitcoin pode montar uma estrutura de capital semelhante a um mini banco de investimento, com diferentes degraus: no topo, ações ordinárias; no meio, bonds conversíveis; na base, várias ações preferenciais. Investidores com diferentes perfis de risco podem escolher seu nível na escada.
Recentemente, Saylor, ao vender para fundos soberanos no Oriente Médio, simplificou a lógica a um número: vender um equivalente a 1,4% do capital em instrumentos de crédito, e assim pagar dividendos e aumentar a posição de Bitcoin para sempre. Essa fórmula de “1,4% para sempre” soa como mágica, mas por trás há toda uma linha de operação de capital.
Por que essa palestra vale a pena assistir com atenção
No discurso de abertura de 24 de fevereiro, intitulado “Liberdade por Design”, Saylor, junto com o CEO da Strategy, pretende desenhar uma nova forma de empresa — soberana, independente, imortal — apoiada por um tesouro de Bitcoin, livre do sistema bancário tradicional, capaz de resistir ao impacto da IA.
Essa narrativa parece grandiosa, mas há algumas questões importantes a serem questionadas.
Primeiro, para quem esse modelo é útil? O relatório mostra que, em 2025, mais empresas possuem Bitcoin, mas poucas conseguem escalar esse capital no mercado. A maioria apenas compra e guarda, não se encaixando na estratégia de Saylor.
Segundo, onde estão os riscos? No segundo semestre do ano passado, com a volatilidade do mercado, algumas empresas tiveram que vender Bitcoin para pagar dívidas. Com dívidas em moeda fiduciária com vencimento, o Bitcoin deixa de ser um ativo de reserva intocável. Os instrumentos complexos, como ações preferenciais e bonds conversíveis, podem se transformar em uma armadilha na falta de liquidez, sem terem passado por testes de estresse reais.
Terceiro, como o mercado vai precificar tudo isso? O relatório aponta que há uma desconexão entre o spread de crédito e o risco percebido entre diferentes séries de ações preferenciais da Strategy. Isso indica que o mercado ainda não aprendeu a precificar esses ativos. Quando a precificação estiver confusa, para quem entende, é oportunidade; para quem não entende, é armadilha.
O que Saylor quer provar
Na próxima semana, quando Saylor subir ao palco, ele não terá mais o “Bitcoin White Paper” na mão, mas uma série de demonstrações financeiras e um esquema de estrutura de capital.
Ele quer mostrar que não se trata mais de “quanto o Bitcoin vai subir”, mas de uma ideia: uma empresa baseada em Bitcoin pode emitir diferentes produtos financeiros, atraindo diversos tipos de investidores, formando um ecossistema de capital autossustentável.
Se essa lógica funcionar, o papel do Bitcoin na empresa mudará. Ele deixará de ser apenas um número no balanço, para se tornar a base de uma máquina de geração de valor. Sobre essa base, podem ser construídos ações, dívidas, ações preferenciais e até produtos ainda não inventados.
Claro que essa lógica pode não funcionar. O jogo do mercado de capitais é muito mais complexo do que comprar moedas. Liquidez, precificação, risco, regulação — cada etapa pode travar tudo.
Mas uma coisa é certa: Saylor já não se satisfaz em ser o “primeiro a comprar Bitcoin”. Ele quer ser o definidor de uma nova classe de ativos.
Conclusão
24 de fevereiro, às 13h00, Las Vegas.
Quando Saylor subir ao palco, provavelmente estará diante de uma das audiências mais concentradas de “empresários de Bitcoin” do mundo. Empresas dessas pessoas já compraram Bitcoin, estão pensando em comprar, ou já estão aprendendo a emitir dívida, como Saylor.
O que eles ouvirão, perguntarão, se preocuparão, será o que determinará o mercado nos próximos meses.
Afinal, quando alguém começa a falar de “crédito digital” em vez de “ouro digital”, o jogo por trás mudou.
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