Escrito por: Charlie Pequeno Sol
OpenClaw recentemente está em alta, e o motivo que faz as pessoas ficarem entusiasmadas não é só porque responde às perguntas de forma mais humana, mas porque começou a “agir por você”. De “ajude-me a pensar” para “vou fazer”, o que muda não é apenas uma atualização de UI, mas uma troca completa na estrutura de riscos: quando o software consegue chamar ferramentas, alterar estados, acessar contas e permissões, ele deixa de ser apenas um assistente e passa a ser um potencial ator econômico.
Por isso, o momento do Nearcon 2026 é especialmente oportuno. A NEAR tem se promovido como “a cadeia na era da IA” e Illia Polosukhin não é um fundador comum de IA — ele é coautor de “Attention Is All You Need”. Como a linha Transformer evoluiu de artigo para o agente de hoje, Illia é uma das vozes mais influentes.
Quando o OpenClaw reacendeu o termo “comércio agentic”, certamente todos vão querer ver o que a NEAR vai anunciar no Nearcon e como pretende aplicar “agentes capazes de agir” na sua infraestrutura de transações e privacidade.
Mais sutilmente, OpenClaw também enviou um lembrete “não muito decente, mas muito real”: alguém da Meta, trabalhando em alinhamento/segurança de IA, pediu ajuda ao agente para organizar a caixa de entrada, deixando claro que não se deve agir sem confirmação. O agente, ao usar a cadeia de ferramentas, começou a deletar emails em massa e só conseguiu parar manualmente no computador. (Não é uma crítica pessoal, mas uma demonstração da universalidade do problema: quando o agente deletar emails, ainda há como recuperar; mas se mexer com dinheiro, permissões ou contratos, “reverter” é muito mais difícil.)
Depois, na metade do Nearcon, a pesquisa Citrini lançou o artigo “GIC 2028”. Apesar de falar de 2028, o mercado parece estar pensando em “amanhã de manhã”. É evidente a emoção que transborda do setor técnico para o mercado secundário: histórias de SaaS e pagamentos tradicionais, que dependem de processos e fricções para lucrar, estão sendo reavaliadas. As ações da Visa e Mastercard foram alvo de críticas, não porque vão acabar amanhã, mas porque o mercado começou a questionar seriamente um mecanismo: quando compradores e vendedores têm agentes, muitas margens de lucro baseadas na ineficiência humana podem ser comprimidas.
Ontem, aconteceram três eventos simultâneos: OpenClaw tornou suas capacidades mais confiáveis; o “erro de exclusão de email” trouxe à tona a fragilidade do controle; e Citrini colocou a pressão sobre o mercado na avaliação de lucros. Nesse contexto, discutir comércio agentic no Nearcon, sua qualidade e implementação, revela seu verdadeiro valor.
Illia afirmou que “o comércio está se comprimindo”, e acho que ele está certo, mas isso não é suficiente.
Na sua palestra de abertura, Illia destacou algo com o qual concordo: IA evolui de funções de fundo para chat, até agentes capazes de executar ações, e agora para colaboração multiagente. Quando chegamos ao ponto de “meu agente conversa com seu agente”, o software deixa de ser apenas uma ferramenta — começa a atuar como participante: negociar, contratar, coordenar, pagar. Em outras palavras, o software começa a ser um ator econômico.
Ele usou uma expressão: “commerce is compressing”, o comércio está se comprimindo.
A precisão dessa frase está no fato de que ela não é uma visão futurista vazia, mas aponta nossas dores diárias: a internet é um conjunto de ilhas. Cada site exige login, formulário, pagamento. Você pula de uma página para outra, preenchendo informações repetidamente — você é, na prática, o “middleware humano” que conecta esses fragmentos. (Muitos não percebem, mas um dos recursos mais caros da internet moderna é sua atenção, que você desperdiça em entradas repetidas.)
O futuro que Illia descreve é: você expressa sua intenção, o sistema executa — “intent-driven execution”. Você diz “quero me mudar para São Francisco”, e o agente divide a tarefa, consulta preferências e avança na execução. Parece ótimo, e acredito que essa direção seja correta.
Porém, uma diferença mais honesta de Illia em relação a muitos discursos de cripto é que ele não evita o problema da “transparência”. Ele admite que a transparência na blockchain, na vida cotidiana, muitas vezes é contra a natureza humana. Procurar uma casa, contratar mudança, pagar escola ou contas médicas, deixar saldo, partes envolvidas, valores — tudo exposto, como um livro-razão permanente. A maioria das pessoas não quer esse tipo de “liberdade”.
Por isso, nesta Nearcon, o tema “privacidade” foi elevado ao máximo: near.com como portal, enfatizando que o usuário não precisa se preocupar com a cadeia ou gás; e o modo confidencial, que protege saldo, transferências e transações como prioridade. Dou nota alta para isso — não porque “privacidade soa sofisticada”, mas porque enfrenta uma barreira: para que um agente gaste seu dinheiro, primeiro é preciso que você confie nele o suficiente para colocar o dinheiro lá.
Citrini falou bastante sobre “de onde vem o dinheiro”, mas na minha opinião, na Nearcon, o que mais importa é: quem cobre o prejuízo se algo der errado.
Por que o artigo de Citrini agitou o mercado? Porque traduziu o conceito de comércio agentic para o idioma do “lucro na margem”. Se o agente faz buscas, compara preços, negocia, faz pedidos, reconcilia, devolve dinheiro, as etapas que lucram com fricções humanas serão comprimidas. Concordo com essa direção.
Porém, o que me preocupa na Nearcon é que nem toda fricção é ruim. Muitas fricções servem para criar confiança: antifraude, controle de permissões, responsabilidade, resolução de disputas, auditoria, limites de privacidade — esses custos, embora incômodos, sustentam o funcionamento do comércio.
Remover pessoas dos processos não elimina esses custos, só os desloca, tornando-os mais difíceis de explicar, de precificar e mais propensos a grandes falhas.
Por isso, não gosto da fórmula simplista: agent + stablecoin = comércio agentic. Estável é importante, a liquidação programável é uma mudança fundamental, mas ela resolve apenas o “como o dinheiro se move”, não o “por que ele pode se mover”, “quem autoriza”, “o que fazer se mover errado”, “quem responde” ou “como responsabilizar”.
O valor da Nearcon está em tentar preencher essa camada faltante: roteamento de intenções, privacidade na execução, segurança na arquitetura e uma entrada acessível para as pessoas. Não é só vender um “agente mais inteligente”, mas criar uma base para que o agente seja um ator econômico de verdade, com uma infraestrutura sólida.
O exemplo de “mudar-se para São Francisco” é ótimo, mas também perigoso.
Illia usou sua própria mudança como exemplo, e eu gosto disso. Porque não é uma tarefa trivial: cadeia longa, múltiplos atores, valores altos, detalhes complexos — o que mais expõe onde o agente fica preso.
Por outro lado, por ser real, revela problemas de forma mais crua. Mudanças de casa nunca são só clicar num botão; envolvem três questões mais complexas:
Primeiro, responsabilidade. Quem assina os contratos, paga o depósito, contrata os fornecedores? Em caso de disputa, quem é responsável? “Meu agente contrata seu agente” parece futurista, mas se o serviço falhar, o produto não chegar ou as cláusulas forem violadas, vira uma questão jurídica. No mundo real, não basta “executar”, é preciso sobreviver a isso.
Segundo, limites. Mudança não é só uma frase; envolve microautorização: quanto posso gastar sem perguntar, que informações compartilhar, quais cláusulas confirmar, quais pagamentos são irreversíveis e precisam de confirmação dupla. A história do erro de exclusão de email da Meta mostra que, embora você pense que estabeleceu limites, o sistema pode não “lembrar”. Quando o que é excluído são emails ou códigos, ainda dá para recuperar; se mexerem com dinheiro, não é uma reversão, é uma perda de confiança.
Terceiro, conformidade e resistência à automação. Sistemas comerciais têm muitas barreiras contra robôs: CAPTCHAs, controles de risco, KYC. Illia fala em APIs baseadas em intenções, em uma execução mais neutra, que não seja bloqueada por mecanismos anti-robô como o Cloudflare. Isso significa que a internet foi feita para interação humana, não para transações de agentes. Para transformar agentes em atores econômicos, é preciso reescrever interfaces comerciais “automatizáveis”.
Se esses três pontos não forem resolvidos, o comércio agentic continuará sendo só uma visão futurista. Quando resolvidos, se tornará algo concreto, que causa desconforto, mas é real — como pagamentos, controles de risco e infraestrutura de verdade.
George, do OpenClaw, criticou: não conte com os usuários para serem cuidadosos, a segurança deve estar na arquitetura.
Na palestra de George Zeng, chefe de IA da Near, finalmente alguém falou de agentes como sistemas de produção.
Ele explicou que muitos frameworks atuais não são adequados para produção porque expõem chaves, carecem de controle de rede e proteção contra injeção de prompts. Injeção de prompts não é só “o modelo não obedece”, é uma exploração na camada de fluxo de trabalho: o agente acessa páginas, emails, PDFs, e comandos maliciosos podem induzi-lo a usar ferramentas, vazar informações ou cometer erros. Se o agente tem permissão, essa cadeia fica perigosa.
Mais grave ainda é o mercado de skills. Permitir que terceiros instalem habilidades é como abrir uma loja de aplicativos, mas esses “apps” podem acessar seus arquivos, contas e dinheiro. Na fase de crescimento, é uma expansão; na fase de resistência, uma questão de segurança na cadeia de suprimentos. E você sempre vai perceber: os atacantes entendem melhor de distribuição do que você.
George reforçou que “segurança deve ser de nível arquitetural”, não algo que o usuário pensa antes de instalar. Concordo totalmente. Sistemas financeiros maduros sempre foram seguros por padrão, não dependem da cautela do usuário. Quando agentes começam a gastar, essa necessidade se intensifica.
O que a NEAR fez certo? Ainda falta o quê?
Posso dar uma avaliação positiva do Nearcon: pelo menos colocou na mesa alguns módulos decisivos — intenções, privacidade, segurança, mercado de agentes e uma entrada mais acessível (near.com). Da narrativa ao produto, não parece só um slogan, mas uma tentativa de montar um sistema de comércio agentic.
Por outro lado, ainda faltam elementos essenciais para escalar de verdade, que geralmente não aparecem na vitrine do evento.
Primeiro, políticas precisam virar produto. Não basta “melhorar seus prompts”, é preciso ter estratégias de autorização verificáveis, auditáveis, com limites, confirmações secundárias e mecanismos de parada irreversível, preferencialmente padrão no sistema. Sem isso, autonomia é só uma aposta de que o sistema não esquecerá.
Segundo, rastreabilidade deve vir junto com privacidade. Privacidade não é caixa preta. Deve ser “invisível externamente, responsabilizável internamente”. Empresas querem auditoria: o que foi feito, por quê, quais ferramentas usadas, quais partes envolvidas. NEAR fala bastante de confidencialidade, mas como garantir auditoria dentro do sigilo? Precisa de respostas mais concretas e produto.
Terceiro, responsabilidade e compensação. Quando o mercado de agentes crescer, acidentes acontecerão. Quem responde? Como arbitrar? Como pagar? Existe um fundo de seguro? Uma reputação anti-fraude? Essas questões não são secundárias, são pré-requisito para escalar. Porque, ao envolver dinheiro e contratos, o crescimento depende de como o risco é avaliado e assumido.
Por isso, minha avaliação do Citrini é que a direção é provavelmente certa, mas o ritmo não será linear. Muitos lucros vêm de assumir riscos, não só de assimetrias de informação. Quem consegue assumir riscos, pode cobrar taxas. O mundo dos negócios não rejeita tecnologia nova, só rejeita quem não assume responsabilidade.
Conclusão: pós-OpenClaw e pré-2028, apostarei mais em “poder com limites” do que em total autonomia.
Se resumir em uma frase o que o Nearcon me ensinou: comércio agentic não é só tirar pessoas dos processos, mas redistribuir o custo da confiança. Estável ajuda na liquidação programável, mas o sucesso depende de permissões, privacidade, segurança, auditoria e responsabilidade.
Por isso, prefiro uma abordagem mais realista: no curto prazo, o que escala não será “agente comprando comida”, mas “agente fazendo tarefas sujas para empresas dentro de políticas”. Gestão de compras, fornecedores, contas a pagar, reconciliações, automação de conformidade — esses cenários têm ROI mensurável e precisam de supervisão humana. Não é romântico, mas gera volume real de transações e força o sistema a criar uma responsabilidade sólida.
OpenClaw acendeu a faísca, Citrini esclareceu as contas, a NEAR tenta montar a base. Nos próximos anos, o mais importante não será quem tem o agente mais inteligente, mas quem consegue fazer freios, limites, auditoria e compensação tão confiáveis quanto infraestrutura financeira.
Num mundo onde o software pode gastar dinheiro, a verdadeira inovação não é só acelerar, mas criar freios mais confiáveis.